Ilustração de Dante Valentine
Tudo estava normal naquela
Segunda-feira. Era aula de Botânica, Angiospermas ou algo do tipo, não me
lembro direito, afinal eu estava descansando confortavelmente em minha
carteira. Sério, estava tendo um sonho ótimo envolvendo a Sandy, uma girafa e
uma Ferrari! Hilário! Eu devia estar rindo enquanto dormia... Pelo menos isso
justificaria o fato do lazarento do meu professor jogar um pedaço de giz na
minha cabeça... Depois disso não dormi mais... Mas também fiz questão de não
prestar atenção na aula...
Passados dois terços da aula
eu comecei a observar as pessoas na sala. Mais da metade dos meus coleguinhas
estava dormindo (confesso que imaginei o professor armado com uma metralhadora
atirando toco de giz na cabeça de todo mundo). O resto da turma estava
prestando atenção, não na aula obviamente, mas em seus celulares, livros,
carrinhos de controle remoto, coelhos, elefantes, baleias, etc. O babaca do
professor (sim, guardei rancor por causa do giz) estava falando para as
paredes!
Para evitar uma morte lenta e
dolorosa por tédio, decidi colocar minha imaginação para trabalhar. Comecei a
imaginar a forma mais dolorosa (e mais divertida) para assassinar meu professor.
Decidi que um tigre entrando pela porta e comendo o infeliz com garfo e faca
era uma ótima opção... Foi nesse momento que notei que algo estava errado... O
professor havia se calado e olhava fixamente para a porta. Ele estava pálido e
com os olhos esbugalhados. Parecia que ele havia visto a morte em pessoa! No
início achei que fosse uma brincadeira, mas ele não movia um músculo sequer.
–Professor? – Uma menina
boboca na primeira fila perguntou – O senhor está bem?
Nenhuma resposta. Comecei a me
perguntar o que teria acontecido. A garota boboca decidiu se levantar e ir até
a estátua que, instantes atrás, era nosso professor. Ela caminhou lentamente,
parou ao lado dele e, então, gritou... um grito agudo de horror que parece ter
chamado a atenção de todos na sala. Aparentemente, apenas ela e eu tínhamos
notado que algo estava errado...
Aos poucos as pessoas
começaram a ficar preocupadas e a entrar em pânico, afinal agora eram duas
pessoas paralisadas de medo olhando para algo posicionado na porta da sala... O
que diabos estava acontecendo ali? Outras pessoas se aventuraram em direção a
porta e todas acabaram paralisadas! Que diabos!!
De repente, algo chamou a
atenção daqueles que ainda se mexiam. Uma sombra enorme começou a se projetar
próxima a porta. Uma sombra diferente de todas as outras que eu já havia
visto... Ela parecia ser bem mais que uma simples projeção de um corpo, ela
parecia ter uma essência própria! Deuses, que diabos era aquela coisa?
Aos poucos todos os outros
foram sendo paralisados exceto... Eu... Instintivamente comecei a rezar para
todos os deuses que eu conhecia, mas desisti ao escutar uma voz dentro da minha
cabeça:
– Não adianta rezar agora,
Scott. Sua hora chegou e nenhum Deus poderá te salvar para aonde você vai.
Tudo ficou escuro e eu
desmaiei...
– Scott! Scott! – A voz de
minha mãe ecoava em minha cabeça – Acorde, Scott!
– Mãe? O que a senhora faz
aqui? Espera! Eu MORRI?
Ela riu. Já haviam se passado
cinco anos desde sua morte, mas eu ainda me lembrava perfeitamente bem daquele
sorriso.
– Olhe em volta, Scott. Isso é
apenas um sonho.
– Então não é real? Você não
está aqui de verdade?
– Para a maioria das pessoas
um sonho é apenas um sonho, mas você é diferente, Scott... Você é especial.
– Como assim?
– Scott, a primeira coisa que
você precisa entender é que eu amei seu pai desde o instante que o conheci.
Preciso que você acredite nisso, tudo bem?
– Tudo bem, mãe. Eu sei que
você o amava.
– Muito bem, a segunda coisa
que você precisa entender é que Anjos e Demônios são coisas tão reais quanto eu
e você. Eles vagam pela Terra levando bondade ou terror e se relacionam com os
humanos de todas as formas possíveis. Dito isso, preciso te contar uma coisinha
meio que importante...
Ela corou. Espera, um fantasma
pode corar? Que bizarro...
– Fala logo, mãe...
– Bom... É que você é... Filho
de um anjo...
Bom, não sei como você
reagiria ao descobrir que é filho de um ser celestial e não de um corretor de
imóveis como te disseram sua vida toda. Eu confesso que eu gritaria, brigaria,
choraria e mandaria alguém para o quintos dos infernos em condições normais,
mas meu dia estava sendo qualquer coisa menos normal, então apenas fiquei
boquiaberto.
– Eu sei que isso é muito, meu
filho, mas isso te torna alguém muito importante. Você precisa entender que
eles estão atrás de você! Você precisa escolher sabiamente. Use seus poderes
para se proteger!
– Que poderes? Do que você
está falando? Ai!
Rapidamente aquela cena foi se
desfazendo ao passo que a dor na minha cabeça aumentava. Naqueles últimos
instantes com minha mãe pude apenas reconhecer as palavras “Eu te amo” antes
dela sumir completamente e eu acordar...
Sério, minha cabeça doía
horrores. Se você nunca foi agredido com um taco de beisebol, aproveite a sua
sorte, pois posso garantir que é horrível. Merda! E que sonho foi aquele? Foi
mesmo um sonho? Pareceu tão real...
– Então, Scott, onde é que
você está? – Falar sozinho sempre me ajudava a pensar com clareza – Ah! Que
maravilha! É uma cela! Sempre quis ficar preso numa cela!
Bom, isso meio que era
verdade, mas dadas as circunstâncias, decidi fazer algo um pouco mais racional:
gritar feito uma garotinha pedindo para alguém me tirar dali... Que diabos eu
estava pensando? Que o Batman ia brotar ali para me salvar? Se bem que isso
teria sido bem legal! No entanto, o único cara que apareceu não era bem do tipo
herói mascarado... Ele estava mais pra carrasco mesmo...
– Cala a boca, anjinho!
Já estava me preparando para
mandar o cara para um lugar indecente, então olhei para ele direito. Mais de
dois metros, corpo musculoso... Devia pesar pra lá dos 150 quilos... Usava uma
máscara preta que cobria todo o rosto exceto os olhos...
PUTA.QUE.PARIU.DEUS.TODO.PODEROSO.QUE.PORRA.DE.OLHOS.ERAM.AQUELES? Os olhos do
sujeito eram duas bolas completamente negras! E não, não eram grandes pupilas
negras... Era tudo preto mesmo! Que diabos estava acontecendo?
– Assim é bem melhor. Agora
anda. – Ele gentilmente me agarrou pela gola e me arrastou para fola da cela –
O chefe quer falar com você.
Ótimo! Tudo que eu queria era
conhecer o desgraçado responsável por tudo aquilo...
Paramos em frente a uma grande
porta de metal. O brutamontes me empurrou, docilmente, para dentro e fechou a
porta atrás de mim. A maldita porta, é claro rangeu até minha espinha congelar.
Olhei em volta e me dei conta que estava em um grande salão mal iluminado.
Estava tão escuro que demorei alguns instantes até reconhecer uma silhueta a
alguns metros de mim.
– Aproxime-se, Scott. – Disse
uma voz de robô que ecoava por todo o salão.
Ótimo! Fui sequestrado por uma
seita de robôs do futuro! Será que eu ainda estava sonhando? Por alguma razão
estúpida, decidi me aproximar da tal silhueta. Quando cheguei perto o bastante,
decidi olhar para outro lugar além do chão de mármore... Foi como olhar para um
espelho...
– Finalmente nos conhecemos,
Scott! Esperei longos dezesseis anos para isso!
Maravilha! Não bastava eu ter
sido sequestrado e agredido, meu sequestrador tinha que ser um maníaco com voz
de robô que era uma cópia cuspida de mim mesmo. Repito, maravilha!
– Quem diabos é você? – Acho
que soei mais corajoso do que eu era, mas estava revoltado.
– Curiosa escolha de
palavras...
Você já ouviu um robô tendo
uma crise de riso? Se não, sorte sua... É medonho!
– Vai dizer que você é o
Capeta? Sério?
– Eu não sou Lúcifer, Scott.
– Então quem é você? O Homem
Bicentenário?
– Eu sou sua morte, Scott.
Meu queijo caiu. Acho que
fiquei assim por uns minutos...
– Minha o quê?
– Sua morte. Seu anjo da
morte, se preferir...
– Ah! Agora estou muito mais
tranquilo!
Eu não estava. Bom, mas como
ficar calmo quando você se encontra frente a frente com um ser todo vestido de
preto, com longas asas negras, que apareceram quando ele se revelou um anjo, e
um bastão de beisebol?
– Ok. Que droga de brincadeira
é essa?
– Não é brincadeira, Scott.
Sei que sua mãe esclareceu tudo para você no sonho, não foi?
– Ela falou a respei... Ei!
Como você sabe que sonhei com minha mãe?
– Não foi um sonho, Scott.
Tudo o que ela disse é verdade. Você é meio anjo, garoto!
Ele falava isso como se fosse
algo divertido...
– Eu não entendo... Como pode
não ter sido um sonho? Minha mãe está morta...
– Você já ouviu falar que
quando dormimos nossa alma fica livre para vagar entre o mundo dos vivos e o
dos mortos? Isso é verdade, mas apenas que, como você, possuem poderes divinos.
– De novo essa história de
poderes? Mamãe também falou disso... Que poderes seriam esses que nunca se
manifestaram?
Ele riu... De novo... Risada
medonha...
– Nunca, Scott? Pense um pouco...
Você sabe dizer com certeza quando estão mentindo, não é? Você sente quando
precisam de sua ajuda, estou certo? E é claro, essa não é a primeira vez que
você visita o mundo dos mortos, é?
Deuses! Como ele poderia saber
disso tudo? Nem mesmo meu analista sabia disso... Aliás, agora que parei pra
pensar vejo que aquele velho imbecil é um inútil, mas isso não vem ao caso. Será
que era verdade? Aquele era mesmo meu anjo da morte? Decidi arriscar.
– Vamos supor que eu acredite
em você, o que tudo isso significa?
– Significa, Scott, que o
destino da humanidade está em suas mãos.
Poxa! Ele é bem direto na hora
de jogar a responsabilidade do mundo, literalmente, nas suas costas! Filho da
puta... Espera, xingar um anjo é heresia? Ah... Dane-se... Já estou ferrado
mesmo...
– Você poderia ser um pouco
mais específico quanto a isso?
– Há muitos anos foi
profetizado que o fruto de uma união proibida teria o poder de salvar ou de
destruir a humanidade quando chegasse aos dezesseis anos.
– E você acha que esse
“escolhido” seria eu?
– Eu não acho, eu sei que é
você, Scott. Você é o fruto da única união entre um anjo e um humano nos
últimos mil e quinhentos anos. A profecia é sobre você.
– Mais uma vez vamos supor que
eu acredito em você. Como, exatamente, eu decidiria isso?
– Escolhendo entre sua vida e
sua morte. – Disse uma voz de Darth Vader atrás de mim.
Me virei para ver quem era o
dono da voz e adivinha? Outra cópia minha tinha aparecido! Só que ele estava
vestido todo de branco e tinha imponentes asas igualmente brancas. Os olhos
eram completamente brancos, assim como os da minha morte eram negros. E ao
invés de um taco de beisebol ele segurava um taco de hóquei! Dava pra isso
ficar mais bizarro?
– Quem é você? – Perguntei.
– Eu sou sua vida, Scott.
Era só o que me faltava! Eu
estava me sentindo num desenho do Mickey Mouse... Sabe aqueles em que aparece
um anjinho e um diabinho e dão conselhos pra ele? Pois é... Só que eu tinha uma
morte e um vida em tamanho real... Enquanto minha mente divagava, iniciou-se o
diálogo mais bizarro que já vi na vida! Minha vida falando com minha morte:
– Me admira você, irmãozinho.
Aparecer antes da hora não é do seu feitio...
– É como dizem, maninho, vale
tudo na guerra.
– Isso é tão baixo...
– Se eu vou competir contra
você, preciso pensar como você. Você mesmo me ensinou isso.
– Confesso que estou
impressionado.
– Hey! Eu ainda estou aqui...
– Decidi entrar naquela conversa louca.
Ambos olharam para mim ao
mesmo tempo. Cara, como aquilo foi estranho! Pelo menos eu era de novo o centro
das atenções... Não que isso fosse algo bom.
– Agora que tenho sua atenção,
será que algum dos dois pode me dizer o que fazer?
– Eu já lhe disse, Scott. –
Disse minha vida com sua voz de Darth Vader – Você precisa escolher um de nós.
– Ah! É claro! Como não pensei
nisso antes? Mas POR QUÊ?
– Porque é seu destino, Scott.
– Respondeu calmamente minha morte com sua vozinha de robô – Você está
destinado a ser grandioso, mas nada valeria os sacrifícios e o sofrimento que
você causaria...
– Pode parar por aí, maninho!
Você conhece as regras! Ele deve fazer a escolha por ele mesmo, sem informações
adicionais.
– Mas como posso escolher algo
sem saber o que estou escolhendo?
– Mas você sabe, Scott. –
Disseram os dois ao mesmo tempo – Você deve escolher entre sua vida e sua
morte, Scott Livelois.
– Ah! É claro! Simples
assim... Do nada me aparecem dois seres iguais a mim me dizendo que devo
escolher entre minha vida e minha morte pra salvar ou destruir a humanidade
como se fosse a coisa mais normal do mundo?
– Você definiu muito bem,
Scott. – Disseram ambos.
Lancei aos dois meu olhar mais
irritado e depois passei a ignorá-los. Comecei a pensar. Eu já havia decidido
que aquilo não poderia ser um sonho, então era, certamente, real. No entanto,
até aquele momento, quando me vi pressionado a fazer uma escolha que poderia
mudar o destino da humanidade, eu não havia sentido medo. Mas naquele instante
o medo tomou conta de mim por completo. Pensei em fugir, mas não havia para
onde correr. Mesmo a porta por onde eu havia entrado não estava mais lá! Droga!
– Chegou a hora, Scott. –
Disse minha morte.
– Você precisa se decidir. –
Completou minha vida.
– Decidir assim, no vazio? Sem
saber o que acontece depois?
– Sim. – disseram em uníssono.
– Isso é ridículo! Claro que
eu escolho minha vida, então!
Uma risada ecoou em todo o
cômodo. Minha vida parecia muito feliz, mas aquilo não me pareceu nada, nada
bom...
– O que você fez, Scott? Você
condenou a todos...
O tom de preocupação da minha
morte me deixou meio desesperado...
– Ora, ora, Scott. Não é que
você fez a escolha certa? Agora venha comigo. Você tem um planeta para dominar
com a ajuda de seus demônios!
– meus o quê?
– Seus demônios! Você escolheu
viver e agora deve enfrentar seu destino! Crescer e tomar o poder. Escravizar
os fracos e matar seus inimigos! Tornar o mundo um lugar habitado pelos
demônios! É mais do que tempo dos humanos pagarem por sua heresia! Vamos,
Scott! Juntos seremos invencíveis!
É... Parece que fiz merda... E
das grandes... Mas eu não tinha como saber, tinha? Tudo bem que meu radar
natural me avisou que aquele ser branco era perigoso, mas eu estava assustado! Respirei
fundo e percebi que era hora de enfrentar meu destino.
– Eu não farei nada disso!
– Você não tem escolha, Scott!
– E minha cópia Darth Vader começou a rir... Como aquela risada era irritante.
– Não mais...
– Eu sempre tenho uma escolha!
– Você que sabe... Você não é
mais importante. Boa sorte enfrentando os demônios que você libertou!
E desapareceu.
– Então, morte. Há algo que
ainda possa ser feito para corrigir o que eu fiz?
– Existe algo, mas é muito
arriscado...
– Diga e eu farei! Preciso
corrigir meu erro a qualquer custo! Mas cá entre nós, esses demônios...
– Cruéis e mortais.
– Foi o que eu pensei... Diga
o que devo fazer.
E ele disse...
– Você tá de brincadeira,
certo? Como diabos eu vou conseguir isso?
– Eu não sei, Scott. Esse
caminho você terá que percorrer sozinho. Preciso preparar os anjos para a
batalha que se aproxima. Só posso desejar-lhe sorte.
E sumiu, me deixando sozinho naquele
quarto escuro. Quem poderia imaginar que em um dia eu ia conseguir condenar o
mundo a destruição certa a menos que eu consiga cumprir uma tarefa impossível?
Por falar nisso, eu preciso descobrir como fazer isso... Mas antes tenho um
outro problema em mãos... Como diabos eu saio daqui?