quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Roubo

-Viu a Lua?
-Vi não. Ela já nasceu?
-Já sim. olha ela na janela.
-Pera. Hum, não apareceu ainda não.
-Não? Ué. Aqui ela já apareceu. Tá enorme. Branca. Linda.
-Deixa eu ir lá fora. Eu devo estar olhando para o lado errado.
-Tá bom, vai lá.
...
-Nada ainda. Eu acho que sei o que aconteceu.
-O que?
-Você roubou a Lua.
-Eu roubei a Lua? Como eu ia fazer isso?
-Eu não sei, mas essa é a única explicação.
Silêncio.
-Droga, como você descobriu?
-Eu conheço você.
-Roubei mesmo. E só devolvo se você me falar.
-Te falar o que?
-Você não me conhece? Então você sabe.
-Hum. Chocolate?
-Não.
-Morango?
-Não.
-Você é linda.
-Ahh, não.
-Devolve a Lua, por favor.
-Não.
-Te amo.
-Humm.
-O quê?
-Olha para o céu.
-Tá bom.
-Olha da janela do seu quarto.

-Olha, a Lua está nascendo...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Espero o Tempo que for...

Era outra quarta-feira idiota da minha vida. Aulas chatas de manhã, tendo que aguentar aquelas patricinhas esnobes trocando mensagens de texto durante a aula toda e dando risadinhas histéricas, provavelmente porque uma delas comprou um novo esmalte rosa. Quanta futilidade. Não que eu estivesse prestando atenção na aula... muito pelo contrário, eu só estava querendo tirar uma soneca. Também, quem manda ficar andando de skate até altas horas da noite? Além disso, à tarde eu teria que encarar uma aula de balé, que eu sou forçada a fazer para agradar minha mãe e garantir meu dinheiro no fim do mês. A pior parte é que aqueles três seres cor-de-rosa, Flávia, Karina e Marcela, a última a mais idiota de todas, estarão lá... e como sempre vão aproveitar seus breves momentos sem celular para praticar o único esporte que elas tem capacidade suficiente para aprender: implicar comigo.
Bom, como eu já esperava, não foi uma tarde agradável... nunca era... (mas a Marcela vai ter o que merece...). Pelo menos acabou rápido. Já estava indo embora quando notei que tinha esquecido meu celular na classe. Voltei pra pegar e pra minha infeliz surpresa dei de cara com ela, Marcela, saindo da aula. Momentos de tensão. Mas me controlei... dar uma surra nela seria ótimo, mas poderia me render uma expulsão. Saí do caminho para que ela desfilasse sua prepotência colorida de rosa, a contragosto, claro. Parece que foi ensaiado. Na hora em que ela passou por mim, um garoto de skate passou, quer dizer, colidiu com ela, jogando ambos ao chão. Nossa, foi amor a primeira vista... só que ele não me viu.
Foi muito rápido. Por sorte (ou azar... sei lá) nenhum dos dois se feriu, embora o skate tenha ficado em estado terminal, vindo a falecer horas depois. Recuperado do tombo, o garoto ajudou Marcela a se levantar. Pra que fazer isso? Foram só os olhares se cruzarem pra qualquer retardado que estivesse passando perceber que tinha algo a mais ali. Sinceramente, ainda me pergunto como eles conseguiram falar depois...
“Vo...vo... você está... eh... bem?”
Bom, admito que ver a cara de idiota (mais do que normalmente ela tem) da Marcela, sem conseguir falar ou piscar, foi no mínimo hilário. Só que isso só deixou o garoto mais preocupado... (que ódio)
“Oi, você está bem?” – Perguntou o garoto, colocando a mão no ombro dela.
“Ah... estou sim.”
“Sério, me desculpa. Eu acabei perdendo o controle e você apareceu de repente.”
“Tudo bem... ninguém se machucou.”
“Verdade, só meu skate que parece um pouco danificado...”
“Sério? E dá pra concertar?”
(Insira aqui um palavrão). Aquela patricinha nojenta. Ela estava dando em cima dele! Aquela bruaca cor-de-rosa tinha acabado de conhecer o garoto e estava dando em cima dele!! Eu devia matar ela... o problema é que nenhum dos dois parecia notar que eu ainda estava parada ali. Que ódio!
“Não.” – Respondeu o garoto.
Eles se olharam um minuto e começaram a rir como se fossem amigos de infância. (Insira aqui outro palavrão). Não acreditei quando vi...
“E então, qual o seu nome?”
“Thiago. E você, como se chama?”
“Marcela.”
“Nome bonito. Combina com você.”
O QUÊ?? EU NÃO ACREDITO!! ELE A ELOGIOU...
“Ah... brigada... você costuma ser sempre tão desastrado?”
“Até que não. Costumo ser um ótimo skatista.”
“Tenho minhas dúvidas.”
Eles estavam rindo de novo. Agora, eu me pergunto quais são os motivos que me levaram a ficar ali, estática, sendo ignorada pelos dois... Eu devia ser mesmo uma completa imbecil.
“Por que você não vai me ver competir no sábado? Aí poderia te mostrar que eu não sou tão desastrado assim.”
O QUE? Ele chamou ela pra sair? Não acredito!! Mas é óbvio que ela vai recusar... Imagina se as amigas delas descobrem que ela vai a uma competição de skate?  Além disso, eles tinham acabado de se conhecer... Ela não ia aceitar. Eles são completamente diferentes... Completamente opostos... Imagina só: uma patricinha que amava rosa, celular, internet, bolsas, sapatos e joias e um skatista de tênis e roupas largas, com alargador e boné virado. Era óbvio que a resposta seria aquela... Tão óbvio que decidi sair a francesa... Se bem que não faria diferença o modo como eu saísse, eles nem repararam que eu ainda estava lá quando Marcela respondeu.
“Claro, estarei lá!”
Veio a noite. Saí escondida de casa, como sempre faço, pra ir treinar umas manobras. Afinal, eu ia competir no sábado também. Para minha surpresa, ao chegar à rampa comunitária do bairro, eu encontro com ele. Thiago. Estava sozinho, treinando sua série, que era muito boa pra falar a verdade. Nossa, ele parecia inspirado. Que nojo. Mesmo assim decidi iniciar uma conversa.
Conversamos durante umas três horas. Nossa, nós tínhamos muitas coisas em comum! Ambos gostávamos de tocar guitarra, embora eu não fosse muito boa nisso. Ele até se ofereceu pra me ensinar! Ambos compúnhamos músicas. Ele até disse que depois poderíamos cantar alguma coisa juntos. Gostamos das mesmas bandas, dos mesmos filmes e até mesmo do mesmo sanduíche! A conversa estava tão agradável! Ele disse que amanhã começava a estudar na mesma escola que eu, na mesma sala até. Só resolvi ir embora quando o assunto chegou na Marcela. Disse que tinha que ir dormir e ele me levou em casa. Nossa, é sério, não sei o que ele viu naquela patricinha idiota e metida à besta. Mas amanhã ele vai ver a verdadeira face dela!
Quinta-feira chegou e com ela a decepção. Ele sentou-se ao meu lado na aula, mas assim que tocou o sinal ele foi correndo falar com a Marcela. Ela deu um jeito de despistar as amigas e foi conversar com ele. Minutos depois ele voltou com um grande sorriso no rosto. Basicamente, ela só falava com ele quando ninguém mais estava olhando. Se tivesse alguém perto, ela fingia ignorá-lo. O que era mais revoltante é que ele lidava naturalmente com essa situação! Que ódio!
Os dias foram passando e, novamente, era quarta-feira. Aula de Balé. Bom, pelo menos dessa vez a aula foi útil. Escutei umas coisinhas. Aquela víbora dissimulada da Marcela estava falando mal do Thiago!! Como ela ousa? Concordava com tudo que as amiguinhas dela diziam... Que o cabelo dele era esquisito, que as roupas eram ridículas, etc. Bom, eu comecei a rir. Elas, obviamente, não gostaram. Em especial a Marcela. Depois da aula, ela me esperou sozinha, e disse que tinha que conversar comigo. Irônico e muito divertido. Ela me implorou pra não falar nada pro Thiago. Ela só tinha se esquecido de um detalhe. Eu nunca fui uma ameaça pra ela, não nesse aspecto. Já as amigas dela...
Quinta-feira, o último dia de aula. Foi um dia bem divertido, devo dizer. Estava sentada no meu lugar, como sempre. O Thiago ao meu lado. Fazia um tempo que ele vinha reclamando das atitudes da Marcela quando estava perto das amigas. Será que ele tinha entendido? A garota tinha vergonha dele! Não, não era isso. Ele só queria pedir algo emprestado. A cena que se seguiu foi terrível pra se descrever... A forma como aquelas duas, Flávia e Karina, humilharam ele foi cruel, muito cruel. Mas pior ainda foi a atitude de Marcela ao ser questionada se concordava ou não com as afirmações das duas. Ela se calou. Ficou lá, muda, sem saber se falava alguma coisa ou não. Só quem viu o Thiago depois disso sabe o que ele sentiu. Ele estava arrasado. Finalmente via a verdade e ela doía muito.
Por mais doloroso que fosse pra mim, eu tinha que fazer meu papel de amiga. Era disso que ele precisava. Uma amiga. Não uma garota apaixonada. E foi isso que eu fui. Uma amiga. Escutei tudo o que ele tinha pra dizer, vi ele chorar, escutei ele desabafar. O ajudei a se levantar. Foi uma conversa silenciosa a partir daí. Só o fato de eu estar ali já fazia bem pra ele, o que me deixou bem feliz, admito. Eu não tinha pressa. Nunca tive. Sabia que à hora certa ia chegar. Não importava o tempo que eu tivesse de esperar, eu sempre estaria ao lado dele.  Sempre.
Cinco anos se passaram desde então. Muita coisa aconteceu nesse tempo. Pra começar, Thiago foi campeão brasileiro de skate. Depois, montou uma banda, da qual ele era vocalista e guitarrista. Foi sucesso imediato na internet! Depois ele começou a frequentar a programação da MTV e começaram os shows. Ah é... E ele se apaixonou por mim!! (Claro que essa é a informação mais relevante de todas, pelo menos pra mim). Eis que o destino, enfim, o leva de volta pra aquela cidade na qual tudo começou.
Um mega show. Ia ser o maior em muitos anos na cidade. Passou em todos os canais. Todos sabiam do show! Inclusive duas patricinhas que eram as primeiras da fila pra comprar ingresso. Eu nem acreditei quando vi Flávia e Karina segurando fotos do Thiago. Elas que sempre o humilharam, agora babam por ele? Ironicamente hilário. Decidi não falar com elas. Um pouco mais atrás estava ela, Marcela. Ignorei-a também e segui meu caminho rumo aos bastidores.
Finalmente chegou o grande dia. Centenas de garotas enlouquecidas, dentre as quais reconheci Flávia e Karina, disputavam a tapa um lugar perto do palco. Eu ri muito daquela cena. No entanto, uma coisa me chamou a atenção. Marcela estava do outro lado, tentando entrar escondida nos bastidores. Fui até lá e fiz questão de permitir sua entrada. Eu só enrolei um pouquinho pra que ela entrasse após o início do show.
“O que você faz aqui, Marcela?”
“Eu... só queria me desculpar...”
“Se desculpar ou tentar voltar com ele agora que ele é famoso?”
“Não, eu...”
“Agora ele é bom o suficiente pra você? Agora você não tem mais vergonha dele?”
“Não é isso...”
“Você não mudou nada... ainda é uma víbora dissimulada, mas eu tenho novidades.”
“Não entendo aonde você quer chegar. Sei que você é amiga dele, mas isso é entre ele e eu.”
“Não mais amiga. É mesmo uma pena que você não tenha conseguido enxergar o quanto ele podia ser grande. É uma pena que você não tenha visto a alma boa e grandiosa que ele tem. É assim que termina a história. Nós somos mais que bons amigos.”
“Eu... não acredito...”
“Não? Escute a música. Eu o ajudei a compor. É sobre certa garota que ele conheceu e que o magoou, mas também é sobre outra garota que está sempre aqui pra ele, que está sempre nos bastidores cantando todas as músicas, que é sua maior fã desde sempre e que é o amor da vida dele. É sobre você e sobre mim. Acabou. É de mim que ele gosta.”

Ela chorou. Mas não acho que tenha sido por minha causa. Foi por causa da futilidade dela. Quem sabe agora ela se torne uma pessoa melhor. Torço pra ela encontrar o cara certo, como eu encontrei. Tá... Eu admito que jogar tudo aquilo na cara dela foi ótimo. Ela merecia. Mas vou parar por aqui. Não que a história esteja acabando, pelo contrário, minha história com o Thiago só está começando, o que está acabando é o show.

Sarah

Sarah correu. Correu como nunca poderia imaginar correr um dia. A adrenalina faz isso conosco. Ela nos torna capazes de superar barreiras que considerávamos intransponíveis. Sarah certamente não seria tão corajosa e muito menos tão veloz em condições normais, mas aquela noite certamente não estava sendo normal em nenhum aspecto. A única chance de Sarah era correr...
   Quando Sarah acordou naquela fatídica manhã de Sábado, ela não podia imaginar a série de desventuras que a aguardavam dali a poucas horas. Acreditando ser um sábado como qualquer outro, ela acordou, pontualmente, as oito da manhã e exercitou-se até as nove. Tomou um banho, arrumou o cabelo e, então, desceu as escadas e sentou-se a mesa para tomar o café-da-manhã com os pais e os irmãos.
   Após o café ela deitou-se no sofá da sala e pôs-se a assistir seus desenhos animados favoritos. A maioria das pessoas que conhecem Sarah a descrevem como uma garotinha mimada no auge de seus 17 anos. Ela era do tipo de garota que ama Looney Tunes, Scooby Doo, Avatar, entre vários outros. Seu quarto era absolutamente todo cor de rosa e era o maior orgulho que ela tinha na vida, embora todos achassem isso um exagero. Apesar do que se possa concluir, é preciso ressaltar que Sarah era uma garota muito estudiosa e possuia um sentimento de justiça muito forte. Ela detestava toda e qualquer forma de injustiça que possa existir.
   Sarah tinha um único defeito importante: ela era uma medrosa irracional! Ela tinha medo de quase tudo... desde uma simples barata até do terrível e gigantesco lobo cinzento com três caudas e cinco fileiras de dentes com o qual ela sonhara aos oito anos... Sim, ela tinha alguns medos bem estranhos. Você por acaso conhece mais alguém que tenha medo de anéis, pó compacto, mesas de centro e de quadros do pintor italiano Caravaggio? É... Sarah era a única pessoa no mundo a temer isso. Porém, nenhum de seus medos era tão irracional quanto seu medo de fantasmas. Ela era o tipo de pessoa que via um filme de fantasmas e passava uma semana inteira com medo de dormir. Só pra se ter ideia, quando ela assistiu "Os Caça Fantasmas" ela passou três dias com medo de dormir e de qualquer um usando macacão!!
   A tarde naquele terrível dia, ela foi até a casa de sua prima, pois as duas iriam assistir a um filme. Para a tristeza de Sarah, o filme escolhido era de terror e possuía uma boa dose de fantasmas. Com receio de chatear a prima, ela aceitou, relutantemente, assistir o filme. Foram três intermináveis horas de choro, gritos, olhos fechados, gritos em meio ao choro e com os olhos fechados... O único momento de calmaria foi quando sua tia acendeu a luz da sala após o término dos créditos, que tinham fantasmas em volta. É claro que Sarah quase desmaiou de susto com o barulho repentino do interruptor, mas isso não vem ao caso. A questão é que ela deveria ter pressentido o que a aguardava quando começou a ver o tal filme...
   Já era noite quando Sarah despediu-se de sua prima e recusou a carona de sua tia com a desculpa de que precisava caminhar um pouco. Claro que se ela tivesse aceitado a carona ela teria tido a chance de evitar cada um dos trágicos acontecimentos que a aguardavam apenas a duas quadras dali, na esquina da rua onde ela morava. Infelizmente todos cometemos erros... Sua tia disse para que ela se apressasse e para que tomasse cuidado. Mais uma vez sou forçado a dizer que nenhuma das três poderia sequer imaginar o que aconteceria...
   A rua em que Sarah se encontrava naquele momento era, em geral, até bem movimentada naquela hora da noite. Existiam uma dúzia de bares que ficavam abertos até meia noite e várias lojinhas que só fechavam as onze horas. A iluminação era excelente, de modo que uma garota como Sarah poderia passar por ali sem problemas em um dia comum. Este, no entanto, não era um dia comum... Nenhum bar estava aberto, tampouco as lojinhas. Estava mais escuro que de costume e a iluminação falhava. No fim da rua havia um único poste que piscava com um intervalo de cerca de cinco segundos. Ele ficava logo em frente a casa de Sarah e seria o último pelo qual ela teria de passar.
"Que estranho" - Pensava Sarah enquanto caminhava o mais rápido que podia.
   Ela estava na metade do caminho quando foi tomada por um calafrio que subia velozmente por sua espinha. Ela parou imediatamente e o frio ficou maior. No entanto, não havia o menor sinal de vento. Ela voltou a andar, agora sem o mesmo ímpeto. Aos poucos ela foi sentindo o medo tomando conta dela. A sensação era desesperadora! A essa altura ela já tinha completado três quartos do caminho e tudo parecia assustador. O silêncio gélido que a cercava aumentava exponencialmente seu desespero, mas ela não era capaz de correr. Quando ela estava a poucos passos de chegar ao penúltimo poste de luz um grito de desespero ao longe a fez parar novamente.
"O... o... o que foi isso?" - Ela se perguntou mentalmente. - "Por que não consigo correr?"
   Ela voltou a andar e sentiu uma gota muito fria de suor descer pelo seu rosto. De repente ela estava chorando. Ela ia devagar e passo a passo se aproximava do último poste. Ele estava apagado quando ela iniciou sua travessia. Cinco segundos se passaram muito devagar, como se cada segundo tivesse a intenção de dar a ela a chance de fugir, mas ela não o fez. A luz voltou a se acender e Sarah parou. A respiração dela parou durante aqueles cinco segundos em que a luz manteve-se acesa. Novamente cada segundo pareceu demorar uma eternidade pra passar. Quando a luz acendeu, Sarah olhou pro chão e então ela viu: uma sombra além de sua própria sombra. Uma sombra que não estava lá antes. Parada na mesma posição, Sarah aguardou. A luz voltou a se apagar. Tomada por uma coragem tola, a garota lentamente se virou para o lugar de onde vinha a tal sombra. Ela não via nada. Mais uma vez o tempo era cruel e os cinco segundos pareciam não querer passar. A luz voltou a acender. E Sarah correu...

Primeiro Beijo

O que eu faço agora? Nem sei por que fiz aquilo. Eu não devia ter feito aquilo. Ela não vai me perdoar nunca. Ou vai? Não, é claro que não vai. Será que eu ligo? Melhor não, ela não vai atender mesmo. Eu sou um grande imbecil. Pior é que foi bom, muito bom. Por mais que eu tente, acho que não vou esquecer o dia de ontem.
Era uma sexta-feira normal na escola. A aula de biologia estava um saco, pra variar, e eu estava quase dormindo. Minha melhor amiga me deu um tapa na nuca, ela nunca me deixava dormir na aula, e eu me virei pra repreendê-la, mas não consegui fazê-lo. Nos últimos dias eu não conseguia brigar com ela, toda vez que eu a olhava só via aqueles olhos verdes tão lindos e me perdia dentro deles. Não sabia explicar o que era aquilo, mas era estranho.
Eu a conhecia há muitos anos. Desde que me mudei pra cá nós somos vizinhos. Como somos os únicos jovens na rua, somos amigos desde sempre. Em todos esses anos eu nunca tinha me sentido assim perto dela. O que estava havendo?
Acabou a aula e nós fomos embora juntos, como sempre fazíamos. Quando éramos mais novos, nós íamos de mãos dadas. A mediada que fomos crescendo, isso deixou de acontecer, mas já há alguns dias eu queria muito, muito mesmo, que esse hábito voltasse. Queria caminhar de mãos dadas com ela, queria estar perto dela, queria...
Estávamos na frente da casa dela e eu, enfim, decidi tomar uma atitude. Na verdade eu não cheguei a pensar sobre isso, foi mais instintivo mesmo. Em um movimento súbito, segurei o braço dela, impedindo que ela entrasse. Ela se virou e me perguntou o que o que tinha acontecido. Eu a olhei e disse que tinha que mostrar algo pra ela. Ela me perguntou o que era. Eu disse: “Isso”. Fiz um movimento tão rápido que nem mesmo eu vi. Eu a beijei. Foi rápido, mas foi bom. Depois acho que percebi o que tinha feito e corri feito um louco pra minha própria casa, deixando ela ali, na frente da casa dela e sem entender o que tinha acontecido. Fui direto pro meu quarto e comecei a pensar no que eu iria fazer. Passei a noite em claro. Ainda bem que era sábado. Não sabia o que fazer.
Eu estava completamente perdido nos meus pensamentos, me culpando pelo o que eu tinha feito. Me assustei ao ouvir o meu celular tocando. Corri pelo quarto atrás do meu telefone (vivo esquecendo onde deixei). Ao ver quem estava me ligando, tomei um susto maior ainda: era ela. Atendi.
“Oi, olha, sobre ontem...”
“Espera, eu queria conversar com você pessoalmente, você se importa se eu for até aí?”
“Não. Tô te esperando então.”
Droga. Ela ia vir aqui e me chamar de tudo quanto é nome. Vai dizer que eu sou idiota e cafajeste e que ela nunca mais vai querem me ver. Mas tenho que admitir que lá no fundo eu tinha esperanças de que ela ia dizer que gostou do beijo e que não tinha nada a ver. Só tinha uma coisa que eu sabia que ela não ia dizer: que ela gostava de mim. Eu sei disso, pois dias atrás ela me disse que tava a fim de um cara lá da escola. Acho que foi quando eu ouvi isso que eu percebi o quanto eu gostava dela.
Corri até a porta quando ouvi o interfone. Ela entrou e nós fomos em silêncio, um doloroso silêncio de quem não sabe o que dizer, até o meu quarto. Nos sentamos um de frente pro outro e nos encaramos um minuto.
“Olha, sobre ontem, me desculpa. Não sei por que fiz aquilo.”
“É sobre isso que eu queria falar com você.”
“É sério, vou entender se você não quiser mais falar comigo. Eu não devia ter te beijado daquele jeito.”
“Não, não devia. Mas...”
Eu notei algo esquisito: ela estava nervosa. Até parecia que ela não estava tendo a coragem necessária para me dizer alguma coisa. Não sabia o que ela ia dizer, mas pela primeira vez me senti verdadeiramente confiante.
Com alguma dificuldade, ela continuou:
“... mas é que... foi, tipo... o meu primeiro beijo.”
“É eu sei. Me desculpe, sério. Eu sei que você queria que seu primeiro beijo fosse com o tal cara de quem você gosta. Desculpa.”
Eu estava querendo gritar, mas só o que eu consegui foi chorar. Não sou de chorar, mas naquela hora eu não consegui me segurar. Ela viu que eu estava chorando e se aproximou, sentou-se ao meu lado e me abraçou. Naquela hora tudo sumiu. Aquele abraço me consumiu por completo. Eu poderia ficar ali pro resto da minha vida. Eu achava que tudo estava perfeito, então eu a ouvi dizer baixinho:
“Meu primeiro beijo foi com o garoto que eu gosto. Eu gosto de você. Mas achei que você fosse achar que eu era idiota, tive medo de te perder.”
Acho que entrei em choque, não sei bem. Só sei que aquele momento perfeito ficou ainda melhor ao ouvir essas palavras. Ela gosta de mim!
“Me perder? Nunca. Eu também gosto de você. Desde sempre, eu acho.”

Após um breve minuto de silêncio, um delicioso silêncio de quem não sabe o que dizer, aconteceu um segundo primeiro beijo. Só que dessa vez nenhum dos dois foi surpreendido.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Luta

Ele estava exausto, o suor gotejando pela testa brilhante, a respiração ofegante, o coração pulsando rápido e o sangue espirrado no rosto já está seco.
Quase todos ao seu redor já estavam mortos, os corpos jogados no chão poeirento, o cheiro de sangue podia ser visto. Havia apenas meu oponente em meio aos cadáveres. A espada pesada em punho, a viseira abaixada, o capacete e a cota de malha, antes reluzente, estavam agora de um vermelho fosco.
O sol começava a descer no horizonte, os abutres já se alimentavam do amontoado de carne morta. Eu sabia que ambos estávamos muito cansados para lutar, então descansamos.
O restante dos homens, os que ficaram nas tendas, ajudaram a recolher nossos amigos mortos, fizemos os rituais fúnebres, oramos aos deuses para que ajudassem na vitória do dia seguinte. Enquanto jantávamos, conversamos sobre as mulheres que ficaram sem seus maridos e eu pensei em Sofia, minha noiva. Choramos pelos companheiros mortos, nossos irmãos de espada.
Minha noite foi agitada, visualizando a manhã seguinte, minha batalha com meu oponente.
A manhã finalmente chegou. Calcei minhas sandálias, minha cota de malha, meu capacete, peguei minha espada e meu escudo.
Parti sozinho para o campo que antes abrigava as almas inquietas que não haviam cruzado o Estige e foram habitar os Campos Elísios.
Meu oponente já estava com a espada em sua mão esquerda, o escudo na direita. A roupa dele agora reluzia um raio de sol que voltava a esquentar a areia.
Começamos a rodar em círculos, sempre um de frente para o outro, nos aproximando mais e mais. Ele não me atacou primeiro, o que foi uma surpresa. Quando estávamos bem próximos, investimos nossas espadas contra o outro e lutamos ferozmente. O único barulho que se ouvia era o baque de nossas lâminas e o pulsar do coração.
Eu aproveitava minha defesa para tirar vantagem e evitar seus ataques. Ele era muito ágil, forte e parecia não cansar tanto quanto eu. Mas isso não era um problema.
Dei um ataque em sua cabeça, fazendo voar seu capacete. Enquanto preparava meu golpe final, meu inimigo virou o rosto para me olhar nos olhos.
Era minha Sofia.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

A vida e a morte de Scott Livelois

Ilustração de Dante Valentine


Tudo estava normal naquela Segunda-feira. Era aula de Botânica, Angiospermas ou algo do tipo, não me lembro direito, afinal eu estava descansando confortavelmente em minha carteira. Sério, estava tendo um sonho ótimo envolvendo a Sandy, uma girafa e uma Ferrari! Hilário! Eu devia estar rindo enquanto dormia... Pelo menos isso justificaria o fato do lazarento do meu professor jogar um pedaço de giz na minha cabeça... Depois disso não dormi mais... Mas também fiz questão de não prestar atenção na aula...
Passados dois terços da aula eu comecei a observar as pessoas na sala. Mais da metade dos meus coleguinhas estava dormindo (confesso que imaginei o professor armado com uma metralhadora atirando toco de giz na cabeça de todo mundo). O resto da turma estava prestando atenção, não na aula obviamente, mas em seus celulares, livros, carrinhos de controle remoto, coelhos, elefantes, baleias, etc. O babaca do professor (sim, guardei rancor por causa do giz) estava falando para as paredes!
Para evitar uma morte lenta e dolorosa por tédio, decidi colocar minha imaginação para trabalhar. Comecei a imaginar a forma mais dolorosa (e mais divertida) para assassinar meu professor. Decidi que um tigre entrando pela porta e comendo o infeliz com garfo e faca era uma ótima opção... Foi nesse momento que notei que algo estava errado... O professor havia se calado e olhava fixamente para a porta. Ele estava pálido e com os olhos esbugalhados. Parecia que ele havia visto a morte em pessoa! No início achei que fosse uma brincadeira, mas ele não movia um músculo sequer.
–Professor? – Uma menina boboca na primeira fila perguntou – O senhor está bem?
Nenhuma resposta. Comecei a me perguntar o que teria acontecido. A garota boboca decidiu se levantar e ir até a estátua que, instantes atrás, era nosso professor. Ela caminhou lentamente, parou ao lado dele e, então, gritou... um grito agudo de horror que parece ter chamado a atenção de todos na sala. Aparentemente, apenas ela e eu tínhamos notado que algo estava errado...
Aos poucos as pessoas começaram a ficar preocupadas e a entrar em pânico, afinal agora eram duas pessoas paralisadas de medo olhando para algo posicionado na porta da sala... O que diabos estava acontecendo ali? Outras pessoas se aventuraram em direção a porta e todas acabaram paralisadas! Que diabos!!
De repente, algo chamou a atenção daqueles que ainda se mexiam. Uma sombra enorme começou a se projetar próxima a porta. Uma sombra diferente de todas as outras que eu já havia visto... Ela parecia ser bem mais que uma simples projeção de um corpo, ela parecia ter uma essência própria! Deuses, que diabos era aquela coisa?
Aos poucos todos os outros foram sendo paralisados exceto... Eu... Instintivamente comecei a rezar para todos os deuses que eu conhecia, mas desisti ao escutar uma voz dentro da minha cabeça:
– Não adianta rezar agora, Scott. Sua hora chegou e nenhum Deus poderá te salvar para aonde você vai.
Tudo ficou escuro e eu desmaiei...
– Scott! Scott! – A voz de minha mãe ecoava em minha cabeça – Acorde, Scott!
– Mãe? O que a senhora faz aqui? Espera! Eu MORRI?
Ela riu. Já haviam se passado cinco anos desde sua morte, mas eu ainda me lembrava perfeitamente bem daquele sorriso.
– Olhe em volta, Scott. Isso é apenas um sonho.
– Então não é real? Você não está aqui de verdade?
– Para a maioria das pessoas um sonho é apenas um sonho, mas você é diferente, Scott... Você é especial.
– Como assim?
– Scott, a primeira coisa que você precisa entender é que eu amei seu pai desde o instante que o conheci. Preciso que você acredite nisso, tudo bem?
– Tudo bem, mãe. Eu sei que você o amava.
– Muito bem, a segunda coisa que você precisa entender é que Anjos e Demônios são coisas tão reais quanto eu e você. Eles vagam pela Terra levando bondade ou terror e se relacionam com os humanos de todas as formas possíveis. Dito isso, preciso te contar uma coisinha meio que importante...
Ela corou. Espera, um fantasma pode corar? Que bizarro...
– Fala logo, mãe...
– Bom... É que você é... Filho de um anjo...
Bom, não sei como você reagiria ao descobrir que é filho de um ser celestial e não de um corretor de imóveis como te disseram sua vida toda. Eu confesso que eu gritaria, brigaria, choraria e mandaria alguém para o quintos dos infernos em condições normais, mas meu dia estava sendo qualquer coisa menos normal, então apenas fiquei boquiaberto.
– Eu sei que isso é muito, meu filho, mas isso te torna alguém muito importante. Você precisa entender que eles estão atrás de você! Você precisa escolher sabiamente. Use seus poderes para se proteger!
– Que poderes? Do que você está falando? Ai!
Rapidamente aquela cena foi se desfazendo ao passo que a dor na minha cabeça aumentava. Naqueles últimos instantes com minha mãe pude apenas reconhecer as palavras “Eu te amo” antes dela sumir completamente e eu acordar...
Sério, minha cabeça doía horrores. Se você nunca foi agredido com um taco de beisebol, aproveite a sua sorte, pois posso garantir que é horrível. Merda! E que sonho foi aquele? Foi mesmo um sonho? Pareceu tão real...
– Então, Scott, onde é que você está? – Falar sozinho sempre me ajudava a pensar com clareza – Ah! Que maravilha! É uma cela! Sempre quis ficar preso numa cela!
Bom, isso meio que era verdade, mas dadas as circunstâncias, decidi fazer algo um pouco mais racional: gritar feito uma garotinha pedindo para alguém me tirar dali... Que diabos eu estava pensando? Que o Batman ia brotar ali para me salvar? Se bem que isso teria sido bem legal! No entanto, o único cara que apareceu não era bem do tipo herói mascarado... Ele estava mais pra carrasco mesmo...
– Cala a boca, anjinho!
Já estava me preparando para mandar o cara para um lugar indecente, então olhei para ele direito. Mais de dois metros, corpo musculoso... Devia pesar pra lá dos 150 quilos... Usava uma máscara preta que cobria todo o rosto exceto os olhos... PUTA.QUE.PARIU.DEUS.TODO.PODEROSO.QUE.PORRA.DE.OLHOS.ERAM.AQUELES? Os olhos do sujeito eram duas bolas completamente negras! E não, não eram grandes pupilas negras... Era tudo preto mesmo! Que diabos estava acontecendo?
– Assim é bem melhor. Agora anda. – Ele gentilmente me agarrou pela gola e me arrastou para fola da cela – O chefe quer falar com você.
Ótimo! Tudo que eu queria era conhecer o desgraçado responsável por tudo aquilo...
Paramos em frente a uma grande porta de metal. O brutamontes me empurrou, docilmente, para dentro e fechou a porta atrás de mim. A maldita porta, é claro rangeu até minha espinha congelar. Olhei em volta e me dei conta que estava em um grande salão mal iluminado. Estava tão escuro que demorei alguns instantes até reconhecer uma silhueta a alguns metros de mim.
– Aproxime-se, Scott. – Disse uma voz de robô que ecoava por todo o salão.
Ótimo! Fui sequestrado por uma seita de robôs do futuro! Será que eu ainda estava sonhando? Por alguma razão estúpida, decidi me aproximar da tal silhueta. Quando cheguei perto o bastante, decidi olhar para outro lugar além do chão de mármore... Foi como olhar para um espelho...
– Finalmente nos conhecemos, Scott! Esperei longos dezesseis anos para isso!
Maravilha! Não bastava eu ter sido sequestrado e agredido, meu sequestrador tinha que ser um maníaco com voz de robô que era uma cópia cuspida de mim mesmo. Repito, maravilha!
– Quem diabos é você? – Acho que soei mais corajoso do que eu era, mas estava revoltado.
– Curiosa escolha de palavras...
Você já ouviu um robô tendo uma crise de riso? Se não, sorte sua... É medonho!
– Vai dizer que você é o Capeta? Sério?
– Eu não sou Lúcifer, Scott.
– Então quem é você? O Homem Bicentenário?
– Eu sou sua morte, Scott.
Meu queijo caiu. Acho que fiquei assim por uns minutos...
– Minha o quê?
– Sua morte. Seu anjo da morte, se preferir...
– Ah! Agora estou muito mais tranquilo!
Eu não estava. Bom, mas como ficar calmo quando você se encontra frente a frente com um ser todo vestido de preto, com longas asas negras, que apareceram quando ele se revelou um anjo, e um bastão de beisebol?
– Ok. Que droga de brincadeira é essa?
– Não é brincadeira, Scott. Sei que sua mãe esclareceu tudo para você no sonho, não foi?
– Ela falou a respei... Ei! Como você sabe que sonhei com minha mãe?
– Não foi um sonho, Scott. Tudo o que ela disse é verdade. Você é meio anjo, garoto!
Ele falava isso como se fosse algo divertido...
– Eu não entendo... Como pode não ter sido um sonho? Minha mãe está morta...
– Você já ouviu falar que quando dormimos nossa alma fica livre para vagar entre o mundo dos vivos e o dos mortos? Isso é verdade, mas apenas que, como você, possuem poderes divinos.
– De novo essa história de poderes? Mamãe também falou disso... Que poderes seriam esses que nunca se manifestaram?
Ele riu... De novo... Risada medonha...
– Nunca, Scott? Pense um pouco... Você sabe dizer com certeza quando estão mentindo, não é? Você sente quando precisam de sua ajuda, estou certo? E é claro, essa não é a primeira vez que você visita o mundo dos mortos, é?
Deuses! Como ele poderia saber disso tudo? Nem mesmo meu analista sabia disso... Aliás, agora que parei pra pensar vejo que aquele velho imbecil é um inútil, mas isso não vem ao caso. Será que era verdade? Aquele era mesmo meu anjo da morte? Decidi arriscar.
– Vamos supor que eu acredite em você, o que tudo isso significa?
– Significa, Scott, que o destino da humanidade está em suas mãos.
Poxa! Ele é bem direto na hora de jogar a responsabilidade do mundo, literalmente, nas suas costas! Filho da puta... Espera, xingar um anjo é heresia? Ah... Dane-se... Já estou ferrado mesmo...
– Você poderia ser um pouco mais específico quanto a isso?
– Há muitos anos foi profetizado que o fruto de uma união proibida teria o poder de salvar ou de destruir a humanidade quando chegasse aos dezesseis anos.
– E você acha que esse “escolhido” seria eu?
– Eu não acho, eu sei que é você, Scott. Você é o fruto da única união entre um anjo e um humano nos últimos mil e quinhentos anos. A profecia é sobre você.
– Mais uma vez vamos supor que eu acredito em você. Como, exatamente, eu decidiria isso?
– Escolhendo entre sua vida e sua morte. – Disse uma voz de Darth Vader atrás de mim.
Me virei para ver quem era o dono da voz e adivinha? Outra cópia minha tinha aparecido! Só que ele estava vestido todo de branco e tinha imponentes asas igualmente brancas. Os olhos eram completamente brancos, assim como os da minha morte eram negros. E ao invés de um taco de beisebol ele segurava um taco de hóquei! Dava pra isso ficar mais bizarro?
– Quem é você? – Perguntei.
– Eu sou sua vida, Scott.
Era só o que me faltava! Eu estava me sentindo num desenho do Mickey Mouse... Sabe aqueles em que aparece um anjinho e um diabinho e dão conselhos pra ele? Pois é... Só que eu tinha uma morte e um vida em tamanho real... Enquanto minha mente divagava, iniciou-se o diálogo mais bizarro que já vi na vida! Minha vida falando com minha morte:
– Me admira você, irmãozinho. Aparecer antes da hora não é do seu feitio...
– É como dizem, maninho, vale tudo na guerra.
– Isso é tão baixo...
– Se eu vou competir contra você, preciso pensar como você. Você mesmo me ensinou isso.
– Confesso que estou impressionado.
– Hey! Eu ainda estou aqui... – Decidi entrar naquela conversa louca.
Ambos olharam para mim ao mesmo tempo. Cara, como aquilo foi estranho! Pelo menos eu era de novo o centro das atenções... Não que isso fosse algo bom.
– Agora que tenho sua atenção, será que algum dos dois pode me dizer o que fazer?
– Eu já lhe disse, Scott. – Disse minha vida com sua voz de Darth Vader – Você precisa escolher um de nós.
– Ah! É claro! Como não pensei nisso antes? Mas POR QUÊ?
– Porque é seu destino, Scott. – Respondeu calmamente minha morte com sua vozinha de robô – Você está destinado a ser grandioso, mas nada valeria os sacrifícios e o sofrimento que você causaria...
– Pode parar por aí, maninho! Você conhece as regras! Ele deve fazer a escolha por ele mesmo, sem informações adicionais.
– Mas como posso escolher algo sem saber o que estou escolhendo?
– Mas você sabe, Scott. – Disseram os dois ao mesmo tempo – Você deve escolher entre sua vida e sua morte, Scott Livelois.
– Ah! É claro! Simples assim... Do nada me aparecem dois seres iguais a mim me dizendo que devo escolher entre minha vida e minha morte pra salvar ou destruir a humanidade como se fosse a coisa mais normal do mundo?
– Você definiu muito bem, Scott. – Disseram ambos.
Lancei aos dois meu olhar mais irritado e depois passei a ignorá-los. Comecei a pensar. Eu já havia decidido que aquilo não poderia ser um sonho, então era, certamente, real. No entanto, até aquele momento, quando me vi pressionado a fazer uma escolha que poderia mudar o destino da humanidade, eu não havia sentido medo. Mas naquele instante o medo tomou conta de mim por completo. Pensei em fugir, mas não havia para onde correr. Mesmo a porta por onde eu havia entrado não estava mais lá! Droga!
– Chegou a hora, Scott. – Disse minha morte.
– Você precisa se decidir. – Completou minha vida.
– Decidir assim, no vazio? Sem saber o que acontece depois?
– Sim. – disseram em uníssono.
– Isso é ridículo! Claro que eu escolho minha vida, então!
Uma risada ecoou em todo o cômodo. Minha vida parecia muito feliz, mas aquilo não me pareceu nada, nada bom...
– O que você fez, Scott? Você condenou a todos...
O tom de preocupação da minha morte me deixou meio desesperado...
– Ora, ora, Scott. Não é que você fez a escolha certa? Agora venha comigo. Você tem um planeta para dominar com a ajuda de seus demônios!
– meus o quê?
– Seus demônios! Você escolheu viver e agora deve enfrentar seu destino! Crescer e tomar o poder. Escravizar os fracos e matar seus inimigos! Tornar o mundo um lugar habitado pelos demônios! É mais do que tempo dos humanos pagarem por sua heresia! Vamos, Scott! Juntos seremos invencíveis!
É... Parece que fiz merda... E das grandes... Mas eu não tinha como saber, tinha? Tudo bem que meu radar natural me avisou que aquele ser branco era perigoso, mas eu estava assustado! Respirei fundo e percebi que era hora de enfrentar meu destino.
– Eu não farei nada disso!
– Você não tem escolha, Scott! – E minha cópia Darth Vader começou a rir... Como aquela risada era irritante. – Não mais...
– Eu sempre tenho uma escolha!
– Você que sabe... Você não é mais importante. Boa sorte enfrentando os demônios que você libertou!
E desapareceu.
– Então, morte. Há algo que ainda possa ser feito para corrigir o que eu fiz?
– Existe algo, mas é muito arriscado...
– Diga e eu farei! Preciso corrigir meu erro a qualquer custo! Mas cá entre nós, esses demônios...
– Cruéis e mortais.
– Foi o que eu pensei... Diga o que devo fazer.
E ele disse...
– Você tá de brincadeira, certo? Como diabos eu vou conseguir isso?
– Eu não sei, Scott. Esse caminho você terá que percorrer sozinho. Preciso preparar os anjos para a batalha que se aproxima. Só posso desejar-lhe sorte.
E sumiu, me deixando sozinho naquele quarto escuro. Quem poderia imaginar que em um dia eu ia conseguir condenar o mundo a destruição certa a menos que eu consiga cumprir uma tarefa impossível? Por falar nisso, eu preciso descobrir como fazer isso... Mas antes tenho um outro problema em mãos... Como diabos eu saio daqui?