Sarah
correu. Correu como nunca poderia imaginar correr um dia. A adrenalina faz isso
conosco. Ela nos torna capazes de superar barreiras que considerávamos
intransponíveis. Sarah certamente não seria tão corajosa e muito menos tão
veloz em condições normais, mas aquela noite certamente não estava sendo normal
em nenhum aspecto. A única chance de Sarah era correr...
Quando Sarah acordou naquela fatídica manhã de Sábado, ela não
podia imaginar a série de desventuras que a aguardavam dali a poucas horas.
Acreditando ser um sábado como qualquer outro, ela acordou, pontualmente, as
oito da manhã e exercitou-se até as nove. Tomou um banho, arrumou o cabelo e,
então, desceu as escadas e sentou-se a mesa para tomar o café-da-manhã com os
pais e os irmãos.
Após o café ela deitou-se no sofá da sala e pôs-se a assistir seus
desenhos animados favoritos. A maioria das pessoas que conhecem Sarah a
descrevem como uma garotinha mimada no auge de seus 17 anos. Ela era do tipo de
garota que ama Looney Tunes, Scooby Doo, Avatar, entre vários outros. Seu
quarto era absolutamente todo cor de rosa e era o maior orgulho que ela tinha
na vida, embora todos achassem isso um exagero. Apesar do que se possa
concluir, é preciso ressaltar que Sarah era uma garota muito estudiosa e
possuia um sentimento de justiça muito forte. Ela detestava toda e qualquer
forma de injustiça que possa existir.
Sarah tinha um único defeito importante: ela era uma medrosa
irracional! Ela tinha medo de quase tudo... desde uma simples barata até do
terrível e gigantesco lobo cinzento com três caudas e cinco fileiras de dentes
com o qual ela sonhara aos oito anos... Sim, ela tinha alguns medos bem
estranhos. Você por acaso conhece mais alguém que tenha medo de anéis, pó
compacto, mesas de centro e de quadros do pintor italiano Caravaggio? É...
Sarah era a única pessoa no mundo a temer isso. Porém, nenhum de seus medos era
tão irracional quanto seu medo de fantasmas. Ela era o tipo de pessoa que via
um filme de fantasmas e passava uma semana inteira com medo de dormir. Só pra
se ter ideia, quando ela assistiu "Os Caça Fantasmas" ela passou três
dias com medo de dormir e de qualquer um usando macacão!!
A tarde naquele terrível dia, ela foi até a casa de sua prima,
pois as duas iriam assistir a um filme. Para a tristeza de Sarah, o filme
escolhido era de terror e possuía uma boa dose de fantasmas. Com receio de
chatear a prima, ela aceitou, relutantemente, assistir o filme. Foram três
intermináveis horas de choro, gritos, olhos fechados, gritos em meio ao choro e
com os olhos fechados... O único momento de calmaria foi quando sua tia acendeu
a luz da sala após o término dos créditos, que tinham fantasmas em volta. É
claro que Sarah quase desmaiou de susto com o barulho repentino do interruptor,
mas isso não vem ao caso. A questão é que ela deveria ter pressentido o que a
aguardava quando começou a ver o tal filme...
Já era noite quando Sarah despediu-se de sua prima e recusou a
carona de sua tia com a desculpa de que precisava caminhar um pouco. Claro que
se ela tivesse aceitado a carona ela teria tido a chance de evitar cada um dos
trágicos acontecimentos que a aguardavam apenas a duas quadras dali, na esquina
da rua onde ela morava. Infelizmente todos cometemos erros... Sua tia disse
para que ela se apressasse e para que tomasse cuidado. Mais uma vez sou forçado
a dizer que nenhuma das três poderia sequer imaginar o que aconteceria...
A rua em que Sarah se encontrava naquele momento era, em geral,
até bem movimentada naquela hora da noite. Existiam uma dúzia de bares que
ficavam abertos até meia noite e várias lojinhas que só fechavam as onze horas.
A iluminação era excelente, de modo que uma garota como Sarah poderia passar
por ali sem problemas em um dia comum. Este, no entanto, não era um dia comum...
Nenhum bar estava aberto, tampouco as lojinhas. Estava mais escuro que de
costume e a iluminação falhava. No fim da rua havia um único poste que piscava
com um intervalo de cerca de cinco segundos. Ele ficava logo em frente a casa
de Sarah e seria o último pelo qual ela teria de passar.
"Que estranho" - Pensava Sarah enquanto caminhava o mais rápido que
podia.
Ela estava na metade do caminho quando foi tomada por um calafrio
que subia velozmente por sua espinha. Ela parou imediatamente e o frio ficou
maior. No entanto, não havia o menor sinal de vento. Ela voltou a andar, agora
sem o mesmo ímpeto. Aos poucos ela foi sentindo o medo tomando conta dela. A
sensação era desesperadora! A essa altura ela já tinha completado três quartos
do caminho e tudo parecia assustador. O silêncio gélido que a cercava aumentava
exponencialmente seu desespero, mas ela não era capaz de correr. Quando ela
estava a poucos passos de chegar ao penúltimo poste de luz um grito de
desespero ao longe a fez parar novamente.
"O... o... o que foi isso?" - Ela se perguntou mentalmente. -
"Por que não consigo correr?"
Ela voltou a andar e sentiu uma gota muito fria de suor descer
pelo seu rosto. De repente ela estava chorando. Ela ia devagar e passo a passo
se aproximava do último poste. Ele estava apagado quando ela iniciou sua
travessia. Cinco segundos se passaram muito devagar, como se cada segundo
tivesse a intenção de dar a ela a chance de fugir, mas ela não o fez. A luz
voltou a se acender e Sarah parou. A respiração dela parou durante aqueles
cinco segundos em que a luz manteve-se acesa. Novamente cada segundo pareceu
demorar uma eternidade pra passar. Quando a luz acendeu, Sarah olhou pro chão e
então ela viu: uma sombra além de sua própria sombra. Uma sombra que não estava
lá antes. Parada na mesma posição, Sarah aguardou. A luz voltou a se apagar.
Tomada por uma coragem tola, a garota lentamente se virou para o lugar de onde
vinha a tal sombra. Ela não via nada. Mais uma vez o tempo era cruel e os cinco
segundos pareciam não querer passar. A luz voltou a acender. E Sarah correu...
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