– Aquelas são
Deneb, Altair e Vega. – Eu disse para mim mesma enquanto apontava para as três
estrelas.
Mais de um ano havia se passado desde a última vez
em que estive nesta colina. Era estranho voltar até lá e olhar para aquelas
estrelas em especial. O Triângulo do Verão é uma falsa constelação que só
aparece durante as primeiras horas das noites de verão. Ela é formada por três
estrelas muito brilhantes que, originalmente, são componentes de outras três
constelações: Deneb, que é a estrela alfa da constelação de Cisne; Altair, que
é a estrela alfa da constelação de Áquila; e Vega, a estrela alfa da constelação
de Lira. Por ser formado por três das mais brilhantes estrelas do céu noturno,
o Triângulo do Verão já é, por si só, uma atração linda de se ver, mas a lenda
existente por trás de duas das três estrelas, o torna ainda mais romântico.
Conta-se que há milhares de anos atrás, vivia em
algum lugar próximo à Via Láctea uma bela Princesa Tecelã chamada Orihime-sama.
Certo dia, o Senhor Celestial, que era o pai de Orihime-sama, Tentei-sama,
apresentou a filha à um rapaz que ele julgava ser o ideal para casar-se com
ela. O nome do rapaz era Kengyu, mas ele também ficou conhecido como
Hikoboshi-sama. Os dois jovens se apaixonaram perdidamente e passaram a viver
todos os dias em função do crescente amor que nascera entre eles. Isto, no
entanto, desagradou à Tentei-sama, pois ambos os jovens haviam passado a deixar
de lado suas obrigações diárias em função do romance. O pai de Orihime-sama,
então, decidiu tomar uma atitude drástica e forçou o casal a se separar. Eles
passariam a viver em lados opostos da Via Láctea. A separação trouxe muita
tristeza e sofrimento a Orihime-sama, assim como a Hikoboshi-sama. Sentindo-se
mal pelo sofrimento da filha, Tentei-sama decidiu que iria permitir que o casal
se encontrasse uma vez por ano, no sétimo dia do sétimo mês, com a condição de
que neste dia eles deveriam realizar todos os desejos vindos da Terra. Segundo
a lenda, Vega representaria Orihime-sama e Altair seria Hikoboshi-sama, pois
essas estrelas só podem ser vistas juntas no céu uma vez por ano. No restante
do ano lunar, elas se encontram em lados opostos da galáxia.
Confesso que, embora conhecesse a história, nunca
havia demonstrado simpatia pela história de Orihime-sama e Hikoboshi-sama. Era
apenas uma lenda como qualquer outra, mas os acontecimentos do ano anterior me fizeram
ver com muito mais carinho a história deste casal. Talvez seja presunçoso dizer
que minha história se assemelha um pouco com a lenda, mas acredito que isto se
deva ao fato de tudo ter começado naquela noite em que fomos ver as estrelas...
. .
.
Era um dia como qualquer outro. Todos na classe
conversavam e riam, aproveitando ao máximo nosso tempo livre, mas nada do que
estava sendo dito me interessava. Sentada em meu canto, eu permanecia invisível
aos olhares de todos e tudo que eu fazia era observar o que ele estava
fazendo... Ela não era do tipo popular, mas tinha uma grande facilidade para se
dar bem com todos. Normalmente ele estaria rindo e falando sobre trivialidades
com todos os outros, mas naquela tarde ele limitava-se a permanecer sentado,
olhando fixamente para a janela.
– Eu quero
ver as estrelas. – Ele disse subitamente.
– O que você
disse? – Um dos garotos perguntou.
– Eu quero ir
ver as estrelas hoje! – Ele pôs-se de pé. – Vamos todos ir ver as estrelas! – O
sorriso dele era convidativo.
– Do que você
está falando? – Perguntou algum dos garotos. – Você sempre dá essas ideias
engraçadas!
As risadas que ecoaram pela classe fizeram o sorriso
dele desaparecer completamente. Seu olhar tornou-se vazio e ele voltou a fitar
a janela, visivelmente abatido. Por alguns minutos ele permaneceu assim, imóvel
e em silêncio, o que me preocupava mais do que eu poderia assumir. Pensei em ir
até lá, mas outra vez minha covardia me impediu. Distraída com minha batalha
interna, quase não percebi quando ele voltou a se levantar. Desta vez, no
entanto, ele nada disse. Apenas se levantou, pegou o telescópio da sala e saiu
correndo, decidido. O s olhares de todos voltaram-se para suas costas, enquanto
ele passava pela porta. Aquilo aqueceu meu coração por algum motivo. Talvez
fossem meus sentimentos conflitantes ou talvez eu apenas tenha sido
influenciada pelo entusiasmo dele. Daquela vez eu não cheguei a pensar em nada.
Apenas corri atrás dele sem me importar com as vozes atrás de mim. Apenas a voz
dela me chamou a atenção por um breve instante, no entanto, nem mesmo isso foi
capaz de me impedir.
A minha frente, ele corria sem olhar para trás. Ele
estava visivelmente feliz. Era incrível que eu pudesse sentir isso apenas o
vendo pelas costas. Na verdade, eu nem mesmo sei quando foi que comecei a
persegui-lo, a amá-lo. Quando me dei conta, meus pensamentos já haviam sido
tomados por uma paixão inocente que crescia dia após dia. Eu nem mesmo
conseguia enumerar as razões que me faziam amá-lo, mas isso não importava
naquele momento. Enquanto corríamos por aquelas ruas cada vez mais escuras com
o anoitecer, nada mais importava. Tudo o que eu queria era poder correr ao lado
dele e não mais as suas costas... Então ele parou. De repente ele parou e olhou
em minha direção, sorridente.
– Eu não
imaginei que alguém fosse vir depois de tudo. – Ele me disse.
– É que...
Eu...
– Vem! Vamos!
– Ele segurou minha mão e começou a correr.
Meu coração batia cada vez mais acelerado com a
sensação de ter as mãos dadas com ele. Eu não estava exatamente ao lado dele,
como sonhara, mas eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo todo! Em minha
felicidade, olhei para o alto deste mundo perfeito. O céu noturno era como uma
chuva de estrelas que caia sobre nós e nos iluminava. Me perguntava se poderia
existir felicidade maior no universo. Em meio a minha empolgação, não percebi o
desnível no terreno e acabei torcendo meu tornozelo. Um grito de dor não
planejado tinha tudo para estragar aquele momento perfeito, mas acabou por ter
o efeito contrário. Preocupado, ele sentou-se e analisou meu pé. Estava claro
que eu não poderia andar o restante do caminho. As lágrimas vieram sem que eu
me desse conta. Pensei que havia estragado tudo.
– Isso está
bem feio. – Ele disse, preocupado.
– Desculpe...
– Por que
está se desculpando? – Ele passou a mão em meu rosto, secando lágrimas que eu
nem mesmo me dera conta de estar derramando.
– Eu... Você
queria tanto ver as estrelas...
– Dá uma
olhada. – Ele apontou para o céu estrelado. – Eu já as estou vendo, não é? – O
sorriso dele era gentil.
– Tem
razão... – Meu sorriso veio naturalmente, afinal agora eu conseguia me lembrar
os motivos pelos quais me apaixonei por ele.
– Bom, agora
é melhor levar você para casa. Você precisa cuidar desse tornozelo. Você
consegue ficar de pé?
Eu não podia. Por um momento pensei que eu não
tivesse salvação e que continuaria a causar problemas a ele. No entanto, a
atitude dele me surpreendeu. Ele suspirou, sorriu e se virou. E assim, sendo
carregada por ele, voltei para casa naquela noite. Enquanto caminhávamos,
conversávamos e nos divertíamos tais como idiotas e, desta forma, íamos
conseguindo romper toda a insegurança e solidão que nos cercava. Mais uma vez
eu não conseguia pensar em nenhuma felicidade maior do que aquela que eu estava
sentindo. Eu era a pessoa mais feliz da galáxia durante aquelas horas em que
estive com ele. Quando fechei os olhos naquela noite, eu não podia imaginar que
toda aquela felicidade iria se transformar em dor logo na manhã seguinte...
Na manhã
seguinte fui para o Colégio com um grande sorriso no rosto, sem saber que
aquele sorriso iria desaparecer e dar lugar a muitas lágrimas. Encontrei-o por
acaso no meio do caminho. Ele me perguntou sobre meu tornozelo e sorriu ao me
escutar dizer que ela já não doía. Fomos juntos por todo o resto do caminho.
Aqueles metros que nos separavam do Colégio marcavam meus últimos instantes de
alegria durante muito tempo.
Já no caminho entre a entrada do Colégio e a nossa
classe, percebi que algo estava muito fora do comum. Sentia alguns olhares
maldosos caindo sobre mim. Algumas vezes notei que as garotas passavam por nós
e, imediatamente depois, davam risadinhas depois de cochicharem alguma coisa.
Os garotos pareciam se divertir de longe, apontando em nossa direção. Nada
disso, no entanto, parecia incomodá-lo. Ele ignorava cada risadinha e cada
provocação e continuava a sorrir enquanto falava algo sobre um triângulo. Tudo
mudou, entretanto, quando entramos em nossa sala de aula. Nossos colegas
pareciam aguardar-nos e, ao nos ver, uma onda de perguntas, provocações e
risadinhas fizeram com que aquele sorriso que eu tanto admirava desaparecesse.
Na lousa, corações com nossos nomes e um desenho dele me carregando sob um céu
estrelado causaram uma reação inesperada. Ao ver tudo aquilo, ele precipitou-se
e rapidamente pôs-se a apagar tudo que fora desenhado. Ainda confusa, eu o
segui e o ajudei. Procurei algum conforto em seus olhos, mas eles eram tão
frios quanto a própria morte.
Não tive chances de falar com ele nos dias que se
passaram. Talvez pensar assim fosse apenas minha tentativa desesperada de não
enxergar a verdade diante de meus olhos. Desde o dia em que nossos colegas
riram de nós, ele apenas não falava comigo. Pelo menos era nisso que eu queria
acreditar, mas a verdade é que ele me ignorava completamente. Aquilo me
devastava e meu travesseiro sempre acabava encharcado quando eu ia dormir. Em
algum ponto destas semanas de sofrimento e solidão, eu percebi a real dimensão
de meus sentimentos por ele. Tudo que eu sempre procurei, nele eu fui capaz de
encontrar. Meus sentimentos eram puros e minha dor era real e imensurável. “Vai
ficar tudo bem... Eu estou aqui por você”. Eu sonhava que ele me dissesse isso,
mas sabia que estava me iludindo...
– Estas são Deneb,
Altair e Vega. – Ele disse apontando para o Triângulo do Verão.
Eu já havia me acostumado com aquela incômoda
distância que nascera entre nós semanas atrás. Ele me ignorava e eu me
contentava em vê-lo durante as aulas. Desde que eu pudesse estar perto dele,
apenas olhar para ele... Aquilo já me fazia feliz, mesmo que fosse uma
felicidade incompleta. Sei que parece idiota, mas minha covardia era o que me
permitia viver dessa forma. Embora eu nunca tivesse esquecido a sensação de ter
a mão dele junto a minha, eu tinha plena consciência de que aqueles dias
felizes eram agora parte de um passado que aparentava ser mais distante do que
de fato era.
Um mês já havia se passado desde então. A cada dia
que passava, o aumento da temperatura evidenciava a iminente chegada do verão.
O calor me levava a passar horas em lojas de conveniência apenas para me
aproveitar do ar condicionado. Foi em uma dessas lojas que, em um domingo, eu
os vi. Eu havia comprado um picolé e me preparava para ir para casa. Ao sair da
loja, fui surpreendida pela imagem dos dois se aproximando. Eles pareciam
felizes enquanto conversavam e sorriam um para o outro. Não consegui sair do
lugar até que eles chegassem a loja. Covarde, permiti que uma expressão dura
tomasse conta do meu rosto. Fingi não me importar e os cumprimentei com um
sorriso forçado. A dor que atravessava meu peito era quase insuportável. Ela
disse que iria comprar os sorvetes e nos deixou ali, sozinhos. Imaginei que
devesse ir embora, pois ele não falaria comigo de qualquer forma.
– Espere! –
Ele disse ao segurar minha manga. – Tem algo que eu quero falar com você.
– Comigo...?
– Eu estava surpresa, afinal era a primeira vez que ele falava comigo em um
mês.
– Sim. – Ele
sorriu. – Aqui. – Ele me entregou um folheto. – Espero que você vá.
Despedi-me dele antes que ela voltasse. No folheto
que ele me dera havia uma propaganda sobre o Festival das Estrelas, que
aconteceria em alguns dias. Notei que enquanto eu me afastava, ele me olhava
confuso. Estaria ele tentando adivinhar como eu me sentia? Era mesmo tão
difícil entender mesmo comigo ao seu lado? Meu coração batia rápido e minha
respiração estava pesada, mas mesmo assim ele não entendia... Olhei na direção
dele. Ela já havia voltado e os dois sorriam enquanto brincavam como idiotas
com os sorvetes. Aquilo me lembrou do palito em minha mão. Curiosa, quis saber
qual era a mensagem que ele continha. “Acredite”, era o que estava escrito. A
ironia daquilo me fez rir. Como eu poderia acreditar quando todos os meus
sonhos de garota apaixonada estavam sendo pisoteados pela felicidade daqueles
dois?
Acabei indo ao Festival no fim das contas. Mesmo que
durante as duas semanas que se passaram desde o convite, eu tenha sofrido cada
vez mais com a proximidade entre aqueles dois. Eles estavam sempre juntos e
eles não pareciam se incomodar com os rumores que surgiam. Ele parecia feliz e
isso me incomodava, mesmo sabendo que era egoísmo. No entanto, o fato dele ter
me convidado fazia com que uma parte de mim precisasse estar lá. No entanto, eu
não o vi lá. Procurei por todos os lugares que imaginei que ele pudesse estar.
Imaginei se ele não poderia estar em algum lugar afastado olhando as estrelas
ao lado dela.
– Aquelas são
Deneb, Altair e Vega. – Eu disse enquanto apontava para o Triângulo do Verão. –
Eu finalmente encontrei Hikoboshi-sama, mas Orihime-sama ainda se sente tão
solitária... – Notei que estava chorando.
Naquela noite eu não fiz nenhum desejo, mesmo que
fosse Tanabata. Limitei-me a ir para casa, cabisbaixa. Lembrei-me que na manhã
seguinte teríamos o último dia de aulas antes das férias de verão. Não sentia
vontade alguma de ir até o colégio depois daquela noite frustrante, mas não
tinha escolha. Mais uma vez, forcei minhas lágrimas contra meu travesseiro,
arrependida de ter saído de casa naquela noite.
Por que eu deveria ir até o colégio pegar fotos que
eu nem mesmo lembrava de ter tirado? Aquilo não poderia me fazer bem, afinal de
contas. Eu não queria encontra-lo e, por isso, decidi que iria o mais cedo
possível. Como pensei, não havia mais ninguém no Colégio, o que era bom, mas um
pouco solitário. Enquanto eu caminhava até a sala de aula, as lembranças do dia
em que fiz este mesmo caminho ao lado dele me vieram a mente. Aquele dia já
havia passado há muito tempo, mas a dor que senti ainda estava fresca. Mais uma
vez, reafirmei a mim mesma que não iria demorar mais do que o necessário para
pegar uma foto. Nem mesmo me dei ao trabalho de escolher uma foto em especial,
então apenas levei minha mão em direção a foto que estava no centro. Talvez
fosse o destino atuando, mas notei que havia algo diferente naquela foto.
Estávamos todos reunidos na foto, mas apenas ele não olhava na direção da
câmera. Na verdade, ao analisar a foto percebi que seu olhar era em minha direção.
O que aquilo significava? Aquela foto era, afinal, de nosso primeiro ano, ou
seja, de três anos atrás.
– Eu não te
vi ontem... – Não havia notado que ele entrara na sala. – Você não estava se
sentindo bem?
– Não foi
nada... Essa foto...
– Você deveria
ficar com ela.
– Certo... Eu
vou indo então...
– Espera! –
Ele disse. – Aqui!
– Isso é...
– Você deixou
cair no outro dia. Eu queria te devolver ontem, mas não te encontrei...
Ele me entregou o palito de picolé sorrindo. A mensagem
“Acredite” ainda estava intacta, o que reforçava a ironia daquilo. Era verdade
que o fato dele estar me devolvendo aquilo não era normal, mas o que aquilo
significava? Fiquei olhando o palito por algum tempo, de modo que nem mesmo
notei quando ele se foi... E eu tinha tanto a perguntar... Inocentemente virei
o palito a fim de não ter mais que ler aquela incômoda mensagem, mas a parte de
trás não estava em branco como deveria estar. Uma mensagem havia sido escrita lá.
Uma mensagem cujo significado eu não percebi imediatamente. Uma mensagem
simples, porém cheia de significados. Naquele palito que ele me devolvera
estava escrito apenas “Aquelas são Deneb, Altair e Vega”.
No caminho para casa, enquanto ainda refletia sobre
a mensagem misteriosa, recebi uma mensagem dela. Ela dizia que ele estava indo
embora naquela tarde. Aparentemente os pais dele teriam que se mudar para o
outro lado do país por causa do trabalho. Eu estava confusa com a mensagem no
palito e agora com a mensagem em meu celular. O que aquilo queria dizer? Dentro
de mim o conflito entre a parte que queria ir se despedir e a parte que queria
ir para casa tornava-se cada vez mais complicado. Eu não estava em condições de
decidir por mim mesma, mas jamais pensei que seria ela a me ajudar.
– Você pretende
ficar parada aí? – Ela perguntou ao me ver.
– Eu... Eu...
– Você está
confusa? É compreensível... Vocês são mesmo parecidos... – Ela sorria, mas
estava claramente triste.
– Parecidos?
– Os dois são
covardes. Completamente o oposto de mim.
– Eu não
entendo...
– Sabe, eu
sou completamente apaixonada por ele também...
– Eu sei...
Vocês se dão muito bem...
– Sim... É
verdade. – Ela tentava não olhar em minha direção. – Eu fiz tudo que pude para
me dar bem com ele, mas isso não foi o suficiente...
– Como assim...?
– Você é
mesmo tão lenta quanto ele, sabia? Chega a ser irritante! Ele sempre esteve
olhando para você... Desde sempre ele só teve olhos para você...
– Para mim...?
Ele sempre...
– Sim... E é
por isso que estou aqui te dizendo para ir logo atrás dele. Mas não entenda
errado, tudo o que eu quero é que ele não parta infeliz por não ter conseguido
se despedir de você esta manhã...
– Eu...
– Cala logo a
boca e vai atrás dele!
E eu fui. Corri como há muito não corria. Para ser
sincera, acredito que a última vez que eu correra daquela forma tinha sido no dia
em que fomos ver as estrelas. Enquanto ia até a estação, dezenas de imagens me
vinham a mente. Imagens que eu até então havia ignorado por pensar que se
tratavam de sonhos infantis. Momentos em que pensava que nossos olhos se
encontravam durante as aulas, momentos em que achava ter visto ele olhando em
minha direção... Todos aqueles momentos poderiam ser mesmo reais? Eu queria
acreditar que sim... Queria perguntar a ele, queria dizer a ele como eu me
sentia, mas quando cheguei a estação, descobri que ele já havia partido...
Naquele dia eu não pude dizer que o amava. Talvez nunca mais o pudesse fazer.
. .
.
Tirei da bolsa o palito com a mensagem que ele
deixara como despedida. Eu o guardava como um precioso tesouro e olhava para
aquela mensagem todos os dias antes de dormir. Levei alguns meses para
compreender o que ele quis me dizer e, desde então, tenho aguardado pelo dia de
hoje. Pensei em tudo que poderia dizer, mas acabei decidindo não dizer nada. Ali,
sentada naquela noite de verão, debaixo de um céu estrelado... Só ali eu podia
relembrar de tudo o que acontecera. Lembrar do seu sorriso ao ver as estrelas e
de seu rosto frio no dia seguinte... Eu realmente o amo, mas não posso lhe
dizer isso. É estranho, não é? Mesmo que seja, esta história que você não
conhece, esta história que é meu segredo, é o que me dá forças para superar
noite após noite que você está longe. Essa memória, cada dia mais distante, é o
que me liga a você.
– Posso me
sentar? – Ele perguntou após chegar de repente, como sempre fazia.
– Claro.
– Eu sabia
que você entenderia.
– E eu sabia
que você viria.
Sentados na grama, nós dois olhávamos para as
estrelas, assim como fizemos naquele dia. Nenhum de nós precisava dizer nada
naquele momento. Ambos sabíamos o que o outro estava pensando. Nossas mãos se
encontraram e nossos dedos se enroscaram. Com a mão livre ele apontou para o céu
e disse:
– Aquelas são
Deneb, Altair e Vega.
Naquele Tanabata, ao contrário do anterior, eu tinha
um único desejo. Um desejo que me fazia acreditar que minha história se
assemelhava a de Orihime-sama. Tudo o que eu queria era que aquela noite jamais
tivesse fim...
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