Um beijo me acordou. Um beijo quente, distante e cruel. Me arrancou das profundezas dos meus pensamentos inconscientes. Para ser bem sincero, não tenho ideia do que se passava em minha mente até o momento em que despertei, apenas para que pudesse sussurrar seu nome, "Elisabeth". Por alguma razão, mesmo que não houvesse outra opção, atribuir o beijo a ela parecia errado. Pelo menos o suficiente para que por mais que me esforçasse, minha voz não produzisse nada além de um sussurro seco, quase imaginário. Ainda assim, ouvi-a chamando de volta naquele beijo macio, claro como cristal, talvez apenas o suficiente para me fazer abrir meus olhos.
Uma mão cobria meus olhos, fria e grudenta de sangue, o cheiro era horrível, misturando vísceras, suor, sangue e outras coisas. Sentia um peso terrível sobre mim e quando me mexi, me vi cercado por corpos, eles me olhavam com seus olhos vazios, me seguravam com seus braços sem vida, e eu lutei contra eles, naquela escuridão claustrofóbica, um a um, escavei meu caminho por entre aquela pilha de indigentes mortos. Por mais de uma vez senti a pressão de uma arcada dentária solta, de um órgão arrebentado.
Em liberdade, os chutei para longe. A única luz vinha de uma sala no fim de um longo corredor. Ecos vinham em minha direção, traziam risadas e palavras ainda indistintas, cruzando com o arrastar dos meus pés por sobre o que me pareceu vidro quebrado. Foi quando senti a dor no meu peito, eu havia sido furado em mais de um lugar, precisava de um hospital ou algo do tipo. Minha visão perdia o foco e a cada passo eu me perdia cada vez mais.
"Socorro, por favor..." tentei gritar, mas não consegui. "Só mais alguns passos", tentei me convencer, a luz estava a não mais que alguns metros.
"Por favor..." não senti o impacto do chão, mas o vi chegando perto.
"Elisabeth..." tão errado quanto da primeira vez, mas desta vez ouvi uma voz desconhecida responder "Puta que pariu!"
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