domingo, 16 de março de 2014

Fogos de Artifício

– Ei, Makino! Makino! Você vai ao Festival neste fim de semana? Soube que a queima de fogos será ainda maior do que a do ano passado...
 – Ei! Não diga essas coisas... Você sabe que ela...
 – Não se preocupe, Haruna. Eu estou bem. – Fingi um sorriso. – Ainda não sei se vou, Karen... Não sei se quero ir...
Depois de minha resposta mais sincera do que deveria ter sido, minhas amigas concordaram em me deixar sozinha. Embora elas sorrissem quando saíram da Enfermaria, eu sabia que no fundo elas estavam preocupadas comigo. Eu me sentia um pouco feliz por saber disso, mas nem assim eu conseguia mostrar a elas um sorriso verdadeiro. Não consegui mostrar isso a ninguém durante o último ano. Eu sabia que isso tornava todos ao meu redor um pouco infelizes, afinal eles desejavam meu bem. Mas mesmo assim eu não conseguia esquecer...
Acabei indo para casa naquele dia, ignorando as aulas da tarde. Eu não estava mesmo em condições de prestar qualquer atenção. Meus pais trabalham até tarde, então estaria sozinha em casa, o que era perfeito, pois não estava com vontade de ver e muito menos falar com alguém. Tudo o que eu queria era me refugiar no meu quarto, como sempre fazia nesses momentos de tristeza, e por algumas horas esquecer de tudo e todos, exceto de você...
 - Sabe, meu quarto ainda está do mesmo jeito que você viu da última vez... Você se lembra?
Eu já havia me acostumado com a falta de resposta, mas o silêncio ainda era doloroso o bastante para me fazer chorar. Durante o último ano, eu chorei todos os dias, mesmo que não quisesse fazer isso... Aquele quarto me trazia várias memórias dos nossos dias juntos... Passamos tanto tempo brincando aqui que seu cheiro tornou-se parte do quarto... Mas agora mesmo ele desapareceu...
 - Por quê? Por que você teve que desaparecer? – Minha voz falhava por causa de minhas lágrimas e soluços.
Mais uma vez eu estava em prantos, sem ter a quem recorrer, afinal você era o único que sempre estava lá por mim quando eu chorava. Você sempre me abraçava e dizia que tudo iria ficar bem... Sempre sorria quando eu estava triste e isso era muito mais do que o suficiente para me fazer esquecer qualquer coisa... Você sempre sabia o que dizer ou o que fazer... Você sempre cuidou de mim...
 – Por quê você não sorri mais?
Os dias passavam cada vez mais rápido ao longo da semana e as conversas sobre o festival ficavam cada vez mais intensas. No começo, todos evitavam falar sobre esse assunto enquanto eu estava por perto, mas a medida que o fim de semana tão esperado se aproximava, minha presença tornava-se despercebida diante da empolgação de todos. Mesmo minhas amigas mais próximas pareciam não mais se importar em tocar no assunto comigo presente.
 – Estou tão empolgada! Eu queria saber de algum bom lugar para ver os fogos...
 – Eu também gostaria, mas acho que teremos que nos contentar com o lugar de sempre...
 – Mas vai estar tão cheio!
 – Não adianta fazer essa cara, Karen... É o único lugar que conhecemos...
 – Você sabe de algum bom lugar, Makino? Ah! Desculpa!
 – Não tem problema. Eu sei que vocês estão empolgadas... – Mais uma vez eu era forçada a fingir um sorriso para elas. – Mas é uma pena... Não sei de nenhum lugar assim.
Era mentira. Eu conhecia um excelente lugar, mas não podia dizer isso a elas. Aquele era o nosso lugar, afinal... Sempre íamos lá para assistir os fogos... Nem mesmo consigo me lembrar de quando fomos lá pela primeira vez... Acho que tínhamos uns dez anos de idade ou menos... Encontramos aquele lugar por acaso, depois de nos perdermos na floresta. Eu estava chorando e você segurou minha mão. Enquanto você me guiava, a visão que eu tinha era a de um herói salvando uma donzela em perigo. Quase não acreditei quando você, anos mais tarde, me confessou que estava com medo também. Quando chegamos lá, nos deparamos com uma linda visão do ceu estrelado daquela noite de verão. Enquanto olhávamos para o alto, os fogos de artifício, repentinamente, começaram a subir. Você olhava para aquilo como se estivesse em transe, mas confesso que naquele dia eu não vi os fogos... Naquele dia eu apenas conseguia olhar para o seu rosto... Naquele momento eu soube que estava apaixonada...
A partir daquele dia, fomos ao festival todos os anos. A cada verão que acabava, meus sentimentos por você aumentavam mais e mais... As vezes eu penso que teria sido muito melhor, ou pelo menos mais fácil, ter crescido sem gostar de você... Talvez se essa fosse a realidade, eu hoje poderia ir ao festival com minhas amigas e me divertir como uma garota comum, ao invés de sair escondida de casa para ir ver os fogos sozinha... Sabe, tem vezes que eu tento esquecer tudo. Mas em momentos como esses eu sei que acabaria lembrando de novo e de novo...
 – Você se lembra do nosso último festival?
Eu me lembrava... Aquela noite estava muito semelhante a essa. O vento soprava gentilmente, fazendo com que o som das árvores se misturasse com a música do festival, que nós podíamos ouvir já muito fraca daquela distância. Nos sentamos na mesma calçada em que eu agora descansava e rimos enquanto tentávamos imitar o som da banda tão distante...
 – Hyu – ru – ri –ra... Era assim, não é?
Nishiki kamuro
A caminhada até nosso local secreto foi mais demorada do que de costume naquele ano. Você tinha me dito que precisava me contar algo naquela noite, mas que queria fazer isso em um lugar especial. Você me disse que iria embora quando o verão acabasse, pois seus pais queriam que você estudasse no exterior. Aquilo me devastou. O verão já estava próximo de seu fim, afinal... Aquele pensamento machucava meu coração de uma forma quase insuportável. Mas eu não queria ficar triste naquele momento. Eu queria poder aproveitar cada momento daquela noite, já que poderia ser a última. Uma nishiki kamuro floresceu no ceu estrelado. Aquela foi a primeira vez. Mais uma vez, você olhava fixamente paro os fogos, enquanto eu roubava uma visão de seu rosto. Aquela foi a última vez... Um erro transformou aquela noite de despedida em um começo para algo que não duraria nem mesmo uma estação. Um coração invertido disparado no ceu nos fez rir enquanto olhávamos nos olhos um do outro. “eu te amo” você disse antes de me beijar... Aquela foi a primeira e a última vez...
Se eu ao menos nunca tivesse descoberto esses sentimentos... Se aquela noite em que nos perdemos nunca tivesse existido... Me pergunto se assim eu sofreria menos... Eu gostaria de conseguir esquecer tudo... Absolutamente tudo sobre você. Cada pequena memória, seja feliz ou triste, é capaz de quebram em pedaços meu pobre coração.
 – Por que nos encontramos, então?
Nós nunca mais poderemos nos encontrar novamente, eu sei disso... Mas mesmo sabendo que é egoísta e irracional de minha parte, mas eu quero te ver... Quero muito te ver! Quero voltar a ver seu sorriso, quero poder segurar a sua mão mais uma vez... Sentir novamente aquela paz que eu só sentia quando você estava ao meu lado... Mesmo hoje, não consigo aceitar que você não está mais aqui... Quando fecho meus olhos eu ainda posso sentir sua presença... Não importa o quanto eu queira esquecer, eu ainda me lembro todos os dias daquela última noite de verão em que você estava ao meu lado...
Com um suspiro doce ainda carregado de sentimentos, eu lembrei de quando me apaixonei por você. O brilho e a confiança que seus olhos transmitiam. A força suave de sua voz. Cada traço de sua personalidade me completava de maneira única e perfeita. Aos poucos, o tempo foi deslizando em direção ao passado e, antes que eu me desse conta, um ano havia se passado. Eu ainda buscava seu rosto em minhas memórias e em meus sonhos, no entanto. Os fogos de artifício que eu assisti, sozinha, me fizeram sentir um aperto diferente no peito. Uma dor aguda atravessava meu coração quando me lembrava de que mais uma vez a nova estação estava para chegar e com ela, as lembranças daquele dia em que eu soube que você não estava mais aqui. Quando o coração foi disparado, dessa vez do lado correto, senti, apenas por um instante, que estava de volta àquela nossa última noite de verão... Sentindo sua presença mais forte do que nunca, pela primeira vez fui capaz de dizer aquela palavra tão difícil... Com lágrimas de tristeza e solidão nos olhos, finalmente pude me despedir de você.

 – Adeus...

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