– Ei, Makino! Makino! Você vai ao
Festival neste fim de semana? Soube que a queima de fogos será ainda maior do
que a do ano passado...
–
Ei! Não diga essas coisas... Você sabe que ela...
–
Não se preocupe, Haruna. Eu estou bem. – Fingi um sorriso. – Ainda não sei se
vou, Karen... Não sei se quero ir...
Depois de minha resposta mais sincera do
que deveria ter sido, minhas amigas concordaram em me deixar sozinha. Embora
elas sorrissem quando saíram da Enfermaria, eu sabia que no fundo elas estavam
preocupadas comigo. Eu me sentia um pouco feliz por saber disso, mas nem assim
eu conseguia mostrar a elas um sorriso verdadeiro. Não consegui mostrar isso a
ninguém durante o último ano. Eu sabia que isso tornava todos ao meu redor um
pouco infelizes, afinal eles desejavam meu bem. Mas mesmo assim eu não
conseguia esquecer...
Acabei indo para casa naquele dia,
ignorando as aulas da tarde. Eu não estava mesmo em condições de prestar
qualquer atenção. Meus pais trabalham até tarde, então estaria sozinha em casa,
o que era perfeito, pois não estava com vontade de ver e muito menos falar com
alguém. Tudo o que eu queria era me refugiar no meu quarto, como sempre fazia
nesses momentos de tristeza, e por algumas horas esquecer de tudo e todos, exceto
de você...
-
Sabe, meu quarto ainda está do mesmo jeito que você viu da última vez... Você
se lembra?
Eu já havia me acostumado com a falta de
resposta, mas o silêncio ainda era doloroso o bastante para me fazer chorar.
Durante o último ano, eu chorei todos os dias, mesmo que não quisesse fazer
isso... Aquele quarto me trazia várias memórias dos nossos dias juntos...
Passamos tanto tempo brincando aqui que seu cheiro tornou-se parte do quarto...
Mas agora mesmo ele desapareceu...
-
Por quê? Por que você teve que desaparecer? – Minha voz falhava por causa de
minhas lágrimas e soluços.
Mais uma vez eu estava em prantos, sem
ter a quem recorrer, afinal você era o único que sempre estava lá por mim
quando eu chorava. Você sempre me abraçava e dizia que tudo iria ficar bem...
Sempre sorria quando eu estava triste e isso era muito mais do que o suficiente
para me fazer esquecer qualquer coisa... Você sempre sabia o que dizer ou o que
fazer... Você sempre cuidou de mim...
–
Por quê você não sorri mais?
Os dias passavam cada vez mais rápido ao
longo da semana e as conversas sobre o festival ficavam cada vez mais intensas.
No começo, todos evitavam falar sobre esse assunto enquanto eu estava por
perto, mas a medida que o fim de semana tão esperado se aproximava, minha
presença tornava-se despercebida diante da empolgação de todos. Mesmo minhas
amigas mais próximas pareciam não mais se importar em tocar no assunto comigo
presente.
–
Estou tão empolgada! Eu queria saber de algum bom lugar para ver os fogos...
–
Eu também gostaria, mas acho que teremos que nos contentar com o lugar de
sempre...
–
Mas vai estar tão cheio!
–
Não adianta fazer essa cara, Karen... É o único lugar que conhecemos...
–
Você sabe de algum bom lugar, Makino? Ah! Desculpa!
–
Não tem problema. Eu sei que vocês estão empolgadas... – Mais uma vez eu era
forçada a fingir um sorriso para elas. – Mas é uma pena... Não sei de nenhum
lugar assim.
Era mentira. Eu conhecia um excelente
lugar, mas não podia dizer isso a elas. Aquele era o nosso lugar, afinal...
Sempre íamos lá para assistir os fogos... Nem mesmo consigo me lembrar de
quando fomos lá pela primeira vez... Acho que tínhamos uns dez anos de idade ou
menos... Encontramos aquele lugar por acaso, depois de nos perdermos na
floresta. Eu estava chorando e você segurou minha mão. Enquanto você me guiava,
a visão que eu tinha era a de um herói salvando uma donzela em perigo. Quase
não acreditei quando você, anos mais tarde, me confessou que estava com medo
também. Quando chegamos lá, nos deparamos com uma linda visão do ceu estrelado
daquela noite de verão. Enquanto olhávamos para o alto, os fogos de artifício,
repentinamente, começaram a subir. Você olhava para aquilo como se estivesse em
transe, mas confesso que naquele dia eu não vi os fogos... Naquele dia eu
apenas conseguia olhar para o seu rosto... Naquele momento eu soube que estava
apaixonada...
A partir daquele dia, fomos ao festival
todos os anos. A cada verão que acabava, meus sentimentos por você aumentavam
mais e mais... As vezes eu penso que teria sido muito melhor, ou pelo menos
mais fácil, ter crescido sem gostar de você... Talvez se essa fosse a
realidade, eu hoje poderia ir ao festival com minhas amigas e me divertir como
uma garota comum, ao invés de sair escondida de casa para ir ver os fogos
sozinha... Sabe, tem vezes que eu tento esquecer tudo. Mas em momentos como
esses eu sei que acabaria lembrando de novo e de novo...
–
Você se lembra do nosso último festival?
Eu me lembrava... Aquela noite estava
muito semelhante a essa. O vento soprava gentilmente, fazendo com que o som das
árvores se misturasse com a música do festival, que nós podíamos ouvir já muito
fraca daquela distância. Nos sentamos na mesma calçada em que eu agora
descansava e rimos enquanto tentávamos imitar o som da banda tão distante...
–
Hyu – ru – ri –ra... Era assim, não é?
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| Nishiki kamuro |
A caminhada até nosso local secreto foi
mais demorada do que de costume naquele ano. Você tinha me dito que precisava
me contar algo naquela noite, mas que queria fazer isso em um lugar especial.
Você me disse que iria embora quando o verão acabasse, pois seus pais queriam
que você estudasse no exterior. Aquilo me devastou. O verão já estava próximo
de seu fim, afinal... Aquele pensamento machucava meu coração de uma forma quase
insuportável. Mas eu não queria ficar triste naquele momento. Eu queria poder
aproveitar cada momento daquela noite, já que poderia ser a última. Uma nishiki
kamuro floresceu no ceu estrelado. Aquela foi a primeira vez. Mais uma vez,
você olhava fixamente paro os fogos, enquanto eu roubava uma visão de seu
rosto. Aquela foi a última vez... Um erro transformou aquela noite de despedida
em um começo para algo que não duraria nem mesmo uma estação. Um coração
invertido disparado no ceu nos fez rir enquanto olhávamos nos olhos um do
outro. “eu te amo” você disse antes de me beijar... Aquela foi a primeira e a
última vez...
Se eu ao menos nunca tivesse descoberto
esses sentimentos... Se aquela noite em que nos perdemos nunca tivesse
existido... Me pergunto se assim eu sofreria menos... Eu gostaria de conseguir
esquecer tudo... Absolutamente tudo sobre você. Cada pequena memória, seja
feliz ou triste, é capaz de quebram em pedaços meu pobre coração.
–
Por que nos encontramos, então?
Nós nunca mais poderemos nos encontrar
novamente, eu sei disso... Mas mesmo sabendo que é egoísta e irracional de
minha parte, mas eu quero te ver... Quero muito te ver! Quero voltar a ver seu
sorriso, quero poder segurar a sua mão mais uma vez... Sentir novamente aquela
paz que eu só sentia quando você estava ao meu lado... Mesmo hoje, não consigo
aceitar que você não está mais aqui... Quando fecho meus olhos eu ainda posso
sentir sua presença... Não importa o quanto eu queira esquecer, eu ainda me
lembro todos os dias daquela última noite de verão em que você estava ao meu
lado...
Com um suspiro doce ainda carregado de
sentimentos, eu lembrei de quando me apaixonei por você. O brilho e a confiança
que seus olhos transmitiam. A força suave de sua voz. Cada traço de sua
personalidade me completava de maneira única e perfeita. Aos poucos, o tempo
foi deslizando em direção ao passado e, antes que eu me desse conta, um ano
havia se passado. Eu ainda buscava seu rosto em minhas memórias e em meus
sonhos, no entanto. Os fogos de artifício que eu assisti, sozinha, me fizeram
sentir um aperto diferente no peito. Uma dor aguda atravessava meu coração
quando me lembrava de que mais uma vez a nova estação estava para chegar e com
ela, as lembranças daquele dia em que eu soube que você não estava mais aqui.
Quando o coração foi disparado, dessa vez do lado correto, senti, apenas por um
instante, que estava de volta àquela nossa última noite de verão... Sentindo
sua presença mais forte do que nunca, pela primeira vez fui capaz de dizer
aquela palavra tão difícil... Com lágrimas de tristeza e solidão nos olhos,
finalmente pude me despedir de você.
–
Adeus...

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